Paisagens, jardins, sustentabilidade: uma nova estética?

Muito se fala hoje em sustentabilidade. Termos da moda servem a tudo, ou no mínimo, são utilizados para granjear alguma credibilidade no mercado ou em qualquer universo teórico.  Há os que não toleram o termo  sugerindo substitutivos tais como sobrevivência sustentada e soft power. Assim como ocorreu, décadas atrás, com os termos “globalização e pós-moderno”, que, usados ad nauseam, acabaram se estabelecendo no vernáculo multicultural, a mesma cena traz uma lição: a de que parece ingênuo – posto que inútil –  nadar  contra a corrente vital da Cultura.

Urge, pois, refletir sobre o conceito e as possíveis aplicações, tendo como fundamento a conceituação original teórica. Segundo o Relatório de Brundtland  de 1987 e a ECO-92- Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, Rio de Janeiro : “Sustentabilidade é um princípio, segundo o qual o uso dos recursos naturais para a satisfação das necessidades presentes não pode comprometer a satisfação das necessidades das gerações futuras”.  No terreno do paisagismo, a aplicação do termo exigiria, ao nosso ver, a ponderação de se planejar paisagens e jardins tendendo à auto-sustentação, ou seja, tendendo ao custo zero de manutenção.

Esse princípio tem levado à conscientização geral da população do planeta da necessidade de se tomar medidas prementes que gerem  benefícios ao meio ambiente. E o princípio ecológico “pensar global, agir local” ressalta a responsabilidade relativa a cada pessoa pública ou privada de fazer a sua parte.

Surgem assim os chamados “selos verdes”, as “edificações sustentadas”, os “edifícios verdes”. A busca de “certificados ambientais” atestando que um dado empreendimento é “ecologicamente correto” pode criar benefícios diversos além dos ecológicos, que valorizam a obra, mesmo que simplesmente em benefício de seu aspecto visual e empresarial – o que aparenta ser uma vantagem em nossa ‘sociedade de mercado’, além  de fomentar certa função educativa em benefício do meio ambiente. Tais preocupações são significativas para qualquer interferência humana na paisagem, seja na macro escala, seja na micro escala: Urbanização, Agricultura, Paisagismo.

De fato, atravessamos uma crise ambiental lastreada em muitas incertezas. Não obstante, é preciso admitir flagrantes certezas: o desrespeito ao Código Florestal, os danos ambientais pela depredação da natureza, a deterioração do solo, da água, da vegetação, catástrofes ambientais não totalmente explicáveis, o efeito ‘ilha térmica” – que ocorre em grandes extensões urbanizadas – o efeito estufa que vem provocando o degelo nas zonas polares.

A situação pode parecer catastrofismo para alguns. Entretanto, países como a Espanha já sentem seu amargor na pele. Segundo informações do engenheiro agrônomo Mauro Victor ( ex- diretor do Instituto Florestal e criador do DEPAVE na PMSP) –  as diversas províncias  mais afetadas pela escassez e a baixa qualidade de água disponível  estão sendo obrigadas a racionar o uso da água a tal nível que está afetando diretamente a qualidade ecológica e visual da paisagem, e em conseqüência,  a criação e manutenção de áreas verdes para lazer e turismo. Aliás, a crise de água afetou sensivelmente o turismo da nação, uma de suas maiores fontes de riqueza. Hotéis com campos de golf foram gravemente afetados dada a proibição do uso de água. Se a economia da Espanha baseia-se em serviços (60% do PIB) entre eles o turismo, imagine-se o impacto destruidor dessas medidas.

Nessa ordem de idéias torna-se urgente repensar uma série de conceitos de projetos de paisagismo tanto na macro (km2) quanto na micro escala (m2). Primeiramente tendo como denominador comum o uso da água. Em grande parte do Brasil, e incluindo parte do Estado de São Paulo, há deficiência hídrica no solo. E, no que se refere ao paisagismo, ocorre a tentação de se utilizar indiscriminadamente a água para irrigação, tendo em vista não só seu crescimento, quanto sua aparência estética,  rapidez no crescimento, turgidez, brilho, intensidade do verde e da coloração de flores e frutos.

Antes de entrar no mérito da questão, considere-se a tendência atual  de se projetar paisagens e jardins levando-se em conta o material de vegetação existente no mercado, que engloba uma miscelânea de espécies, nativas e exóticas, tanto originárias de outros países, quanto de outros ecossistemas do próprio território nacional. Tais espécies, de múltiplas  exigências ecológicas, são colocadas lado a lado, motivando projetos de irrigação voltados para condições médias. E estas, por não satisfazerem com exatidão as condições ambientais de todas as espécies selecionadas, abrem espaço para a presença de doenças e pragas. A conseqüência imediata é a utilização de pesticidas químicos que, por sua vez, contaminam os ciclos ambientais e envenenam toda a cadeia alimentar, afetando diretamente a saúde de todos os seres vivos, incluindo o homem. Tal proposta, embora considerada como correta, merece inúmeros questionamentos face a uma outra conjuntura ecológica. A questão do uso de espécies nativas como medida de sustentabilidade  não é tão simples quanto parece. Devemos usar a espécie nativa do ecossistema da região onde estamos trabalhando e ainda mais considerando particularidades locais, tais como a exposição do terreno, a proximidade da hidrografia e as variações no tipo de solo.

Consideremos o Estado de São Paulo, pensando seu ‘balanço hídrico’ de uma maneira muito reduzida. Em toda a faixa sudeste litorânea –  faixa de cem a cento e cinqüenta quilômetros em direção ao interior – chove bastante e não há falta de água no solo. Nessa faixa ocorre potencialmente a floresta atlântica com espécies conhecidas por perenifólias (folhas perenes, ao menos no sentido de que a copa das árvores está sempre verde). Na medida em que nos dirigimos ao interior do Estado, passa a chover menos e começamos a ter deficiência hídrica no solo. O resultado imediato é que a vegetação nativa , ainda que aparente  ser a mesma floresta, terá  predominância de espécies semi-perenifolias e caducifólias, ou seja, há perda parcial ou total de folhas. Tais espécies estão adaptadas naturalmente à deficiência hídrica, e não necessitam, assim, de água extra. Em agricultura se cultiva espécies que vão se adaptando às respectivas condições procurando-se evitar a irrigação artificial. Em paisagismo, como esclarecemos acima, devido a condições do mercado, começa a haver necessidade de irrigação para se alcançar resultados médios no crescimento e na aparência. Assim, no Estado de São Paulo, diferentemente do que ocorreu no caso da Espanha, ainda temos água suficiente para nossos cultivos (agrícolas ou paisagístico-ecológicos), mas quem almejar o selo verde da Certificação Ambiental terá de irrigar menos ou simplesmente  não irrigar.

Não obstante, é drástica a situação em diversas regiões do Brasil,  cujo cenário ambiental é similar ao da Espanha. A exigência atual será a utilização de espécies adaptadas ao estresse hídrico, para evitar o uso de água que poderia ser utilizada para outros fins. Considere-se também que se tornam prementes tais necessidades na medida em que ocorrer o crescimento demográfico e o aumento da superfície impermeabilizada (zonas urbanas, rodovias). Em breve: o uso da água mesmo no Estado de São Paulo terá de ser cuidadosamente administrado.

No tocante ao estresse hídrico, há que se conviver com o mesmo. A vegetação não morre por falta de água, mas ressente-se por sua escassez. As folhas caem ou secam, justamente as espécies decíduas e semi-decíduas. Os agrônomos que estudaram na ESALQ-Escola Superior de Agricultura Luis de Queiroz – e todos aqueles que freqüentam hoje seu parque em estilo  inglês construído em 1905 – vão se recordar que nos meses de seca, de setembro ao final do ano, o gramado ficava todo ressequido em tons palha, mas o verde ressurgia vigoroso após as primeiras chuvas.

Essa convivência leva a outra constatação: a de que paisagens criadas dessa maneira refletem as estações do ano, situando o homem no espaço e no tempo – importante fator para equilíbrio psíquico, uma vez que não temos estações do ano tão definidas quanto em países mais frios. Mesmo assim, fatos ambientais como a escassez de água têm seu papel, juntamente com as diferentes épocas do ano onde ocorrem floradas. E nós, brasileiros,  somos felizardos nisso: temos quaresmeiras, paineiras e aleluias, que florescem nos quatro primeiros meses do ano; temos ipês e suínas, que florescem no meio do ano e temos diversas leguminosas que florescem nos últimos quatro meses do ano. Todo um cenário para a fruição das variáveis de espaço e tempo durante o ano!

Quanto à questão das árvores na estrutura verde a ser criada, essa visão sustentada da paisagem sugere a noção de criação de verdadeiros bosques ao lado de árvores isoladas. Tais bosques, que podem ter de 50 a 5.000 m2 ou mais, são implantados de maneira similar ao reflorestamento, em distâncias de 1,00 à 3,00 metros entre as mudas, de maneira a possibilitar que cada muda ocupe 3 a 6 metros quadrados. Esse sistema de plantio não é novo e tem sido utilizado na formação de áreas verdes já nos últimos séculos. No Brasil, por Glaziou e Puttemans no final do século XIX, quando surgiram obras como o Campo de Santana no Rio de Janeiro, e em São Paulo, o Parque do Ipiranga e Dom Pedro II e o citado parque da ESALQ, em Piracicaba, SP. Tal sistema de plantio fez parte também das propostas do Eng. Agr. Otavio Augusto Teixeira Mendes nos jardins da Fundação Oscar Americano em São Paulo e na criação de mini-bosques na cidade de São Paulo, pelo eng. Agr. Moysés Chaimovich, enquanto Diretor do antigo Departamento de Parques e Jardins. Igualmente o mesmo conceito foi utilizado na criação dos bosques do Parque Villa Lobos – projeto arquitetônico de Décio Tozzi e projeto paisagístico de Rodolfo Geiser. Colocada nos dias atuais, a mesma proposta ganha significado muito maior, uma vez que está inserida em nova ordenação da realidade, onde são fundamentais diretrizes ecológicas mais exatas e conscientes em busca da tendência à sustentabilidade. Ela ganha sentido estético e ético. Uma Estética onde o belo está aliado à Ética da preservação ambiental.

Um dos modelos de pensar esses projetos é o jardim-floresta criado num lote urbano de 900 m2, com 500 m2 de jardins, para o Professor John McNamara em Ribeirão Preto, SP. Numa média de uma muda a cada 7m2, plantou-se 70 mudas de espécies vegetais arbóreas nativas, cuidadosamente selecionadas em função dos espaços dos jardins e atendendo ao princípio da maior diversidade vegetal possível. Executado em 2005, apresenta-se hoje após seis anos, com altura superior a da residência que possui dois andares. Nele, por solicitação do proprietário que é professor de Biologia na USP da cidade, não existem gramados nem canteiros de floríferas. As folhas que caem permanecem sobre o solo e aí se decompõem, enriquecendo-o e recompondo os ciclos ambientais. Surgem assim, espontaneamente nesta base orgânica, inúmeras outras espécies vegetais, entre elas, árvores cujas sementes são trazidas por pássaros. Aparecem também espécies vegetais mais singelas, como fungos, liquens e musgos, ampliando a diversidade, que é outro requisito da certificação ambiental. Numa segunda fase da implantação se promoverá a formação de um sub-bosque através da introdução de espécies herbáceas e arbustivas, também nativas.

Na sua condição de biólogo, o proprietário já classificou no período cento e vinte espécies diferentes de pássaros (vide box). A residência nessas condições possui temperatura mais amena, não requerendo o uso de aparelhos de ar condicionado, enquanto as moradias vizinhas o requerem. Com isso atende-se a mais um requisito de um selo verde,  ou seja, a intenção de se economizar energia elétrica. Nessa linha de pensar, a casa possui aquecimento solar. O equilíbrio ecológico torna-se mais rico e menos vulnerável: a vegetação fica mais equilibrada e integrada no ecossistema da região. Não aparecem ervas daninhas, nem pragas significativas na vegetação, eliminando assim a necessidade de se utilizar pesticidas, o que é mais um requisito para a certificação.

O que se constata nesse jardim-floresta‘ é o fato de não estar somente de acordo com a sustentabilidade , mas o fato de apresentar características que o elevam à condição de tendendo à auto-sustentabilidade, ou seja, tendendo a custo zero de manutenção. Esta fica reduzida a varrer as folhas dos pisos para as partes permeáveis do jardim e a alguma poda de formação para eliminar algum crescimento indesejável.

Tais jardins, ainda que implique certa postura apaixonada do proprietário, levam a uma nova estética. A linearidade e a geometria tornam-se secundárias face à nova ordem da natureza: seu aspecto silvestre. Gramados rigorosamente ceifados são substituídos por relvados. O luxuriante de extensos canteiros de floríferas e folhagens herbáceas, – altamente exigentes em tratos culturais como a irrigação – é substituído pelo discreto e sutil contraste verde das folhagens, típico de nossas matas.

O fator acaso, tão importante na fruição da paisagem, antes quase inexistente, surge agora com toda força, através da imprevisível presença da avifauna. E até mesmo mamíferos e invertebrados são atraídos para esse ambiente silvestre em plena área urbana. A preocupação com a maior taxa de permeabilidade do terreno leva a criação de pisos em decks elevados. Ou seja, surgem novos critérios para se apreciar exuberância da paisagem. Em contraposição à tendência do paisagismo atual, através de um design criado, manipulado e controlado exclusivamente pelo homem, promove-se a livre expressão da Natureza – o que pode não significar uma romântica volta à Natureza, mas simplesmente novos rumos para uma paisagem tendendo à auto-sustentação.

Rodolfo Geiser,

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