Ética e Paisagem: um modelo-espelho

A questão ética é assunto que me atrai e permeou toda a minha vida. Aprendi, principalmente com Albert Schweitzer, que Ética implica padrões de conduta norteados pelo respeito e reverência à Vida. Com o decorrer dos anos, interessado em Natureza e atuando na elaboração de projetos de paisagismo, comecei a perceber que o espírito humano está expresso na paisagem e esta expressão envolve a questão ética. Para expor essa relação criamos um sistema matricial, em anexo, apresentado pela primeira vez em 1976 na 28ª Reunião da SBPC em Brasília, com o trabalho “A natureza e o homem no Estado de São Paulo”.

Filósofos e antropólogos costumam afirmar que tanto Cultura quanto Ética “são o que são”, não se pode aferir. O esquema matricial, porém,  prova o contrário:  sua parte superior mostra uma situação de equilíbrio entre Natureza e Homem, vale dizer Natureza X Cultura, Natureza X Ética. E tal equilíbrio se fundamentaria em condições ideais de manejo; já em sua parte inferior, delineia-se uma situação de desequilíbrio, fruto de uma intervenção no Ambiente totalmente aleatória. No entanto, entre uma e outra, existem situações intermediárias onde a iniciativa humana (Cultura e Ética) controla sua pressão sobre o Ambiente (Natureza) no limite em que o mesmo consegue suportar. Além desse limite, ocorreria o desequilíbrio. Estão em pauta aqui o uso de tecnologias adequadas e a ocupação tendo em vista a fragilidade do meio-ambiente, entre outras preocupações no processo civilizatório de urbanização.

Seguindo o esquema matricial, a partir de tais situações intermediárias, as resultantes seriam as seguintes, do ponto de vista ético:

da situação intermediária para cima, presenciaríamos um aprimoramento da Ética; da situação intermediária para baixo, presenciaríamos o contrário,  uma depreciação da Ética.

Sendo assim, neste início de 2012, continuamos penosamente assistindo, – não obstante confortavelmente sentados diante da televisão -,  enchentes e deslizamentos pelo Brasil afora. Destruição e morte pela simples razão de que se permite a ocupação urbana em áreas impróprias, geologicamente vulneráveis, ou em baixadas onde sempre ocorreram enchentes… Mesmo sem ocupação!

E não apenas estas, mas uma infinidade de ações humanas vem demonstrando a desfaçatez e alienação quanto ao desrespeito à Natureza e à Vida. Eis porque o nosso esquema matricial implica não somente um sistema ambiental, mas algo sensivelmente mais amplo, que envolveria tanto a sociedade quanto aspectos psicológicos de cada habitante da região. Poder-se-ia dizer de um eco-sócio-psico-sistema.

Para nós, profissionais da Paisagem, – e mesmo para cada ser humano que tem o direito de fruí-la -, torna-se cada vez mais evidente este modelo-espelho: o caráter ético das ações humanas pode ser lido na Paisagem. Aliás, salta à vista!

Março de 2011.

Rodolfo Geiser

Maria Lilia Leão (editoria de texto)

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