O jardim dos Mcnamara

Em 2005 elaboramos um projeto de paisagismo para a residência em Ribeirão Preto, do casal McNamara – ambos cientistas-amantes da Natureza.  A solicitação do cliente chamou-nos a atenção pelo fato de se basear unicamente no plantio de um bosque, em plena área urbana, tal como se fosse uma floresta.  O terreno compreendia uma área total de 900m2, na qual caberia somente 400 m2 para o jardim (veja fotos em nosso site na Pasta “Paisagismo – Jardins Residenciais”).

Com o passar do tempo, a nossa expectativa foi também crescendo, paralelamente ao crescimento das plantas, dado o caráter inusitado do projeto.

Foi então que tomamos a liberdade de indagar ao casal qual a razão oculta de sua solicitação. Em retorno recebemos a carta a seguir transcrita, de John McNamara, cujo conteúdo privilegia nosso escritório, pois ilustra, confirma e amplia as idéias que temos exposto na pasta “Reflexões”.

 

Olá Rodolfo.

Como falei, a Elaine e eu temos conversado bastante a respeito da motivação para criar nossa floresta. Acho que este seria o termo mais apropriado no nosso entender. Sei que pode ser um bosque ou jardim ou reflorestamento ou mata, mas sinto que para mim é uma floresta, e é isso que eu queria recriar ou deixar aflorar.

Sei também que tecnicamente não é uma floresta, mas aí entra um aspecto espiritual, sim. Em termos das dimensões espirituais, eu não consigo me sentir em comunhão com um jardim ou um bosque. Seria algo organizado demais, faltando uma aleatoriedade fundamental necessária. Para mim, preciso sentir *floresta*, algo puro e algo diferente – e aí surgi a dimensão espiritual que estava buscando identificar, admito com certa dificuldade.

Talvez usando uma certa analogia, posso dizer que esperar-se-ia encontrar um gnomo num jardim ou uma fada num bosque, mas numa floresta, aí você vai encontrar espíritos, poderes, ‘coisas’, nem sempre o que espera, e nem sempre bonzinhos – encontra-se aquilo que simboliza o nível de espiritualidade em que o indivíduo se encontra. Acho que é por isso que algumas pessoas preferem um jardim e até colocam gnomos e figuras bondosas – algo mais manso, domado, do que uma floresta, que seria algo livre, até de certo modo fora do controle e domínio humano – algo aonde as forças evolutivas orgânicas se expressam livremente, e as forças espirituais também. Há um ciclo de vida – nascimento, amadurecimento e morte muito claro nessa floresta. Sinto que também ocorre algo semelhante em plano espiritual, mas não estou conectado o suficiente para saber o que. O beija-flor morto que está virando adubo de arvore, as folhas caídas se reciclando, a renovação – também positiva na visão geral orgânica. É por isso acho que escolhi o nome Te Ngahere Whakahau, a floresta rejuvenescida: algo que expressa renovação tanto do espírito quanto da terra. Exemplo: o outro dia começou chover muito forte, senti-me impelido a arrancar a roupa por completo e sorver as cascatas caindo do telado alto (na parte de trás da casa claro). Penso que há algo de renovação espiritual em se deixar brotar toda essa vida aqui – pois é uma decisão que se toma, poderia ter sido lajotas, piscina e churrasqueira.

Lembro que quando deparávamos as primeiras vezes com o terreno baldio aqui antes de construir sentimos que algo estava faltando aí, que nossa habitação não poderia ficar sem se atrelar a algo maior, sem ser parte de algo vivo. Aí concebemos a idéia da integração casa-floresta, naquele momento, sim, casa-jardim, talvez a idéia do jardim interno. Mas, ao termos que derrubar uma ou outra arvore pioneira para fazer as fundações sentimos já compelidos a repor aqueles seres por nos mortos. E aí veio a noção de floresta e toda uma visão arquitetônica e arquitetural da edificação. Claro havia noções pragmáticas de sombra, resfriamento no calor de Ribeirão, de vistas do verde por toda parte, mas havia essa busca de tornarmo-nos habitantes de uma floresta que dividiríamos com outros seres animais, sejam as formigas, mariposas, pássaros, morcegos. Até fiquei triste que os sapos que eu ‘salvava’ de esmagamento dos carros na rua durante as chuvas não ficassem aqui; lamento que ainda não têm lagartos grandes ou teiús, faltam gambás, sagüis, tucanos. Fico felicíssimo ao ver uma espécie nova de pássaro pousar aqui, ou uma muda aparecer (quando não é de jardim como pitanga, e sim, de arvore de floresta como embaúba). Não sei se essa felicidade é de espírito ou se é orgânico – há os que não separam as duas coisas. Oscilo muito na minha visão aqui.

Então Rodolfo, não é fácil simplesmente listar as razões práticas por ter feito isso, pois há uma outra dimensão, não sei bem se é motivado no fundo por cultura do meu povo/família (da Nova Zelândia), por razões de conservação ambiental, por respeito aos demais seres e um sentido de tentar devolver um espaço aos seres que habitavam aqui antes de nos nós possuímos do local, de querer ser cercado de um ambiente que nos agrada já que viajamos bastante em busca de locais naturais. E há o aspecto espiritual mais difícil de se identificar e explicar – talvez algo de antepassados celtas, algo que remete aos tempos antes da cristandade, quando não havia a separação de corpo e espírito. Talvez seja bem aí a razão de tudo: aqui nesse lugar, sinto que não há essa separação de corpo e alma – posso ser íntegro, inteiro, mesmo que de vez em quando tenho que podar algo ou cortar um galho. Mas isso é uma parte interativa – o aplicado, uma coisa de humano e não de espírito. Aí me sinto um ‘jardineiro’ de uma floresta, aquele que cuide de uma preciosidade, ou tesouro como disse uma colega hoje. Senti um prazer enorme hoje à tarde em colher alguns ramos de jurubeba com frutos e lhe dar. Frutos estes que algum pássaro trouxe e que vingou e cresceu sozinho aí na floresta. Acho que isso é o espírito de que falo.

Bem, sei que não será fácil para você destilar tudo isso, mas acho que dá uma noção de como pelo menos eu (John) penso a respeito. Fique a vontade de extrair, concluir ou condensar o que achar útil para seu site. A Elaine compartilha muitas das idéias que coloquei aqui, mas sei que tem sua visão própria e que há diferenças em como ela pensa isso. Acho que ela irá se manifestar a respeito.

Um grande abraço, John.

John Campbell McNamara  

Biologia, FFCLRP, USP, Ribeirão Preto 14040-901, Brasil.

 

Rodolfo Geiser,

5 de Junho de 2012.

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