Pró-várzeas ou contra-várzeas?

Os primitivos caçadores que adentravam pelos brejos e circunvizinhanças de campos silvestres, enfrentando o risco de cobras venenosas e outros bichos, conhecem bem as terras úmidas. São nas terras úmidas, ribeirinhas, concentradas em várzeas, que a fauna do ar, da terra e da água se encontram.

O cientista-ecólogo e todos os defensores da Natureza sabem que as terras úmidas possuem uma grande diversidade biológica – diversidade esta indicando que o número de espécies vegetais e animais é extraordinariamente grande. No Brasil, essas terras úmidas – ou ecologicamente consagradas pelo termo Várzeas – são todos os pântanos, alagados, brejos, mangues.

Todo o mundo cobiça a terra úmida. Tanto o caçador para a caça quanto  o engenheiro-hidráulico contratado pelas políticas públicas para o cálculo de represas visando armazenar água para geração de eletricidade e para o abastecimento urbano e rural. Mas ninguém como o agricultor cobiça tanto a terra úmida – as Várzeas – pois sabem que são extremamente férteis e ricas em matéria orgânica – e óbvio, utilíssimas para a prática da agricultura. Não obstante, nas grandes cidades, o “panorama da cobiça” é outro: as terras úmidas são inicialmente deixadas de lado, e consequentemente invadidas e ocupadas para a urbanização. Diante de tanta gente cobiçando as terras úmidas, o que faz – ou pode fazer – o autêntico defensor da Natureza? Continuar sendo um frágil David diante de Golias? E ainda mais: um sincero David antecipadamente derrotado pelo malicioso Golias?

Muito raramente, a Mãe Natureza dá o troco. Lembremos. Lembremos que as civilizações da Assíria e da Babilônia desenvolveram-se até os mais elevados níveis para a época através a exploração agrícola das Várzeas dos rios Tigre e Eufrates. E foram decaindo rapidamente em decorrência do mau e exagerado uso de tas recursos providos pela Mãe Natureza. Nos dias atuais, tamanho é o desenvolvimento da tecnologia que os “cobiçadores” estão mais tranqüilos em sua voracidade sobre as terras úmidas…Como se o conhecimento humano fosse superior às forças da Natureza… Como se não houvesse mais risco algum da Mãe Natureza dar sua resposta ao Homem…E nós – pequenos Davids? – tendo de enfrentar os mais recentes recursos dessa nossa pseudo-civilização…

Refiro-me ao sofisticados recursos nas áreas da informação e da manipulação da imagem. Sabe-se hoje que a imagem transformou-se em recurso tão manipulador cujo poder pode ser bem equiparado  ao de um sistema ditatorial.  Relembro aqui um “exemplo histórico” do mau uso da imagem contra as terras úmidas. Aconteceu em meados da década de 1980, com o autor destas linhas, e no Brasil…Permitam-me entrar em alguns detalhes vivenciais:

Acabara de ser criado no Ministério da Agricultura o “Programa Pró-Várzeas”, cujo título pode ser facilmente interpretado por qualquer aprendiz da língua portuguesa, como o de um programa oficial de proteção e preservação das Várzeas. Ledo engano, caro leitor! O Programa PRÓ-Várzeas tinha em vista justamente o oposto, ou seja, financiar a drenagem dessas mesmas terras para uso agrícola. Não era PRÓ- Várzeas mas CONTRA-Várzeas! Transformar a idéia do contra em pró é uma das sutilezas da manipulação da imagem – infelizmente característica do nosso tempo no cenário ecológico-sócio-econômico-cultural do Brasil. Não se pode saber, nem denunciar, quem bolou esta jogada anti-ecológica.  Subrepticiamente, tudo isso pode ocorrer nos meandros burocráticos entre o Legislativo, o Executivo e o Judiciário nacionais. O fato é que foi uma manipulação de Golias contra David, um jogo de imagens verbais absolutamente irresponsável para confundir e igualar preservação com destruição!

Na seqüência de tais detalhes vivenciais, veio ao Brasil, em setembro de 1985, o Presidente da “União Internacional para a Conservação da Natureza”, com sede na Suíça, para lançar o “Programa de Proteção às Terras Úmidas”. O lançamento ocorrera em Brasília, no Palácio do Planalto, estando presentes o presidente da República, José Sarney e o Ministro da Agricultura, Pedro Simon. Como fundador e presidente da Sociedade Brasileira de Paisagismo, recebi um convite oficial|. Com uma hora de antecedência, frente  ao portal de vidro do  Palácio do Planalto, adentramos  uma ampla sala no aguardo do Senhor Presidente. Havia uma espécie de tablado em nível superior onde ficariam as autoridades. E lá já estava o Senhor Presidente da União Internacional. Finalmente, abre-se uma portinha, entra o chefe do cerimonial com um grande bastão, bate três vezes no chão, toc, toc, toc, e anuncia: “Sua Excelência o Presidente da República Federativa do Brasil, Senhor José Sarney!” Passados 4 a 5 segundos entra o Presidente acompanhado do Ministro Pedro Simon.

Aí vieram os discursos. Toda aquela pompa e circunstância me lembravam os filmes da Idade Média :  “Damas e Cavalheiros, todos em pé,  vai entrar sua Majestade, o Rei!”  No breve discurso do presidente, Sarney se referiu a uma região do Maranhão, que era de alagados, ou seja, de terras úmidas. Pensei com meus botões: “ a conclusão dele será esta: Nasci em terras úmidas e sou sensível ao problema.” Ledo engano, caro leitor.

Muito mais rapidamente que eu poderia imaginar, formou-se uma imensa fila da qual eu era um dos últimos. E toca a esperar…e eu a pensar: “ O que vou dizer para eles?  No empurra-empurra, diante de ambos, e procurando economizar tempo, disse:

“Senhor Presidente, agora necessitamos acabar com o Pró-várzeas…(pausa) Ou, pelo menos, chamá- lo de CONTRA- Várzeas !”

Ambos me encararam estupefactos. E me apertaram as mãos solenemente. Tudo muito politicamente correto. O subtexto mental de ambos só poderia ser este: “Estamos diante de um penetra, de um inimigo da natureza. Como é que ele quer acabar com o PRÓ-Várzeas?

Meses mais tarde, procurei o pessoal do Suplemento Agrícola do Estadão, para sensibilizá-los sobre a questão do PRO- Várzeas, digo CONTRA- Várzeas. Disso

resultou uma entrevista  no citado Suplemento em 9 de Outubro de 1985  ( vide a íntegra neste site.)

Concluímos o presente texto, citando Vilém Flusser, autor do livro Pós-História”, que nos inspirou e fundamentou sobre a questão do mau uso da Imagem. Esse mau uso da Imagem é de suma importância, pois vem se generalizando, tornando o “não’ em “sim” , e vice-versa, sem as pessoas perceberem, tal o impacto da Imagem na “Pós-História”.A Imagem predominando sobre o texto torna o texto prescindível, se não totalmente dispensado, prevalecendo a “enganação” como verdade absoluta.

E a última palavra é de Flusser:

“Viveremos, doravante, não entre conceitos, mas entre imagens de conceitos. Tal estar-no-mundo pode ser chamado “estrutural”, porque viveremos entre estruturas. Ou “pós histórico”, porque viveremos entre processos imaginativamente sincronizados.”

E como prova da preocupante atualidade de tal tema, – o mau uso da Imagem,  ou melhor dizendo, texto-imagem –  transcrevemos um texto publicado pela revista VEJA de 09/05/2012,  em sua seção “Blogosfera” :

Como ser desonesto com as palavras

Há muitas formas de ser desonesto com as palavras. Uma parte substancial delas envolve a tentativa de engambelar ou intimidar o interlocutor dando-lhe a impressão de que não alcança aquilo que dizemos quando, na verdade, aquilo que não dizemos é tudo o que queremos dizer. Trata-se de um truque especialmente caro à alma brasileira, e existem três caminhos básicos para lográ-lo: por meio do vocabulário preciosista; do raciocínio tortuoso; ou de ambos.

(Veja de 09/05/12)

 

entrevista publicada no Estadão em 09/10/1985 (clique na imagem para aumentar).

 

 

5 de Junho de 2012.

Rodolfo Geiser

Editoria de texto: Maria Lilia Leão

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