O segredo da botânica

O SEGREDO DA BOTÂNICA

Rodolfo Geiser

I.-

O mundo das plantas na natureza sempre me encantou e deixou fascinado. Desde criança, aos 3, 4, 5 anos. E, de alguma maneira, persiste até hoje, décadas depois.

As folhas das plantas, suas infinitas variações em forma, dimensão e disposição de acordo com a espécie vegetal. As de formas simples, ovaladas, as em forma de lança, aquelas com desenhos recortados. As folhas compostas. E, na parte interna de cada folha, as nervuras também dos mais diferentes tipos. Desde nervuras paralelas até aquelas que vão se ramificando como os ramos de uma árvore. E sua igualmente diversa coloração. Os infinitos tons de verde. Claros e escuros. Alguns amarelados, outros avermelhados. Os glaucos. Todos ressaltando as também quase infinitas variações nas formas das folhas. Cada espécie de planta com seu tipo próprio de desenho.

Espécies de plantas que crescem junto ao solo, em plena exposição à luz do sol ou à sombra no sub-bosque de uma mata; as diferentes espécies nas partes mais sombrias tais como samambaias, musgos e cogumelos. Plantas de diversas alturas e plantas que sobem sobre os ramos das árvores, dos cipós, até aquelas bromélias que lembram o abacaxi, grudadas lá no alto, e as orquídeas de que todo mundo fala e das quais meu pai tinha uma pequena coleção no quintal de casa.

Era um mundo só meu e que fui descobrindo sozinho, andando pelos jardins, campos e matas. Fui fazendo minha própria organização das espécies e tipos, quanto à sua dimensão e forma de crescimento: as árvores, os arbustos, as palmeiras, as folhagens sem caules e ramos ou conforme o desenho de suas folhas: de espadas grandes como o milho ou pequenas como as das gramas dos jardins. Eram descobertas só minhas: um mundo à parte que a cada dia que passava se mostrava mais amplo.

Sempre fascinado pelas plantas, lá pelos 17 anos, ao me decidir por uma profissão que me proporcionaria a sobrevivência financeira, estava em dúvida entre a botânica e a engenharia agronômica. Optei pela última, pensando que estar junto com plantas e cultivando-as seria algo mais proveitoso para todos do que simplesmente estudar e anotar variações do reino vegetal. Fui também motivado pelo meu primeiro emprego, uma espécie de ajudante que fazia de tudo numa empresa que projetava e executava jardins, e, dessa maneira, tinha um surpreendente contato com a botânica e as plantas.

No transcorrer desses anos todos, na escola, fui tomando conhecimento dos grandes estudiosos de botânica no Brasil. A começar por von Martius, cientista alemão que veio para o Brasil na comitiva da princesa Leopoldina, que se casaria com Dom Pedro I em torno de 1820. E, mais tarde, os botânicos brasileiros Frederico Hoehne e João Barbosa Rodrigues. Fiquei muito admirado com a história de vida dessas pessoas, que se embrenhavam nas matas por meses, anos, correndo risco de vida, longe da civilização, simplesmente para ver plantas. Que tipos de homens poderiam ser? O que os movia?

João Barbosa Rodrigues, nascido em 1842, passou cerca de 30 dos seus 57 anos de vida viajando pelo Brasil e estudando a flora. Numa época em que não havia estradas nem veículos motorizados . Embrenhou-se pela Amazônia e produziu uma obra monumental intitulada Coleção das Palmeiras Brasileiras (Sertum Palmarum Brasiliensium), na qual descreve minuciosamente 389 espécies de palmeiras, organizadas em 42 gêneros, acompanhadas de 174 cromolitogravuras, cada peça uma verdadeira obra de arte. Desenhadas com um preciosismo de detalhes que hoje em dia não se vê mais. De onde viria tanta energia?

Em torno de 1960, conheci o botânico Harry Blossfeld, que, durante a Segunda Guerra, em 1941, fugiu da Colômbia para o Brasil, descendo o Rio Amazonas numa viagem que demorou 15 meses e que lhe custou a saúde. Não poderia haver um caminho mais fácil?

E, logo após minha formatura, em 1965, a convite de meu colega e amigo do Colégio Dante Alighieri, Claudio Willer, subimos a pé as encostas das Serras de Extrema, liderados pelo botânico e orquidófilo Anton von Ghillany: barão húngaro radicado no Brasil. Era um homem magro, 15 a 20 anos mais velho que nós, dotado de uma energia incrível, e que estava sempre uns 30 metros à nossa frente, e andando em zigue-zague, serra acima. Não conseguíamos alcançá-lo, a não ser quando ele parava.

Entretanto, o personagem mais emblemático entre todos, ao menos para mim, foi o professor Albrecht Tabor, que ensinou botânica no Colégio Visconde de Porto Seguro, em São Paulo, nas décadas de 1940 a 1970. Infelizmente, não o conheci, pois cursava outro colégio. Foi o ídolo de muitos de meus primos, amigos e de grande parte de seus alunos. Ficou famoso por atravessar o Deserto de Atacama a pé em quatro dias. Morreu após os 80 anos na Malásia, onde se encontrava estudando botânica, provavelmente assassinado, e seu corpo nunca foi encontrado.

Nessa ocasião, eu cheguei a pensar que todos esses botânicos eram certamente cientistas, mas dotados também de uma boa dose de loucura. Loucos no bom sentido, claro! Entre os quais, eu mesmo, meio inconscientemente, me sentia incluído. Não cheguei a cogitar se poderia haver alguma coisa ou o que poderia haver por trás de tudo isso. Que esse tipo de curiosidade e de vida pudesse encobrir um algo mais.

II.-

Foi somente agora, em meados de 2015, aos 75 anos, que aquela perguntinha que permaneceu adormecida no inconsciente, o “poderia haver algo mais?”, emergiu novamente em minha mente. E aconteceu por acaso.

Envolvi-me no estudo de uma obra de arte da artista plástica Mira Schendel, relacionando-a com a Teoria Geral dos Sistemas e o Estruturalismo, quando me lembrei de uma publicação que comprara em 1968, onde havia um ensaio intitulado Filosofia, Música e Botânica – de Rousseau a Lévi-Strauss, escrito pelo professor de filosofia da USP Bento Prado Junior. Colocar botânica num tripé juntamente com música e filosofia certamente já é algo instigante, a partir do próprio título. Aliás, foi essa a razão de ter adquirido a publicação na ocasião, o incluir ‘botânica’ ao lado de filosofia e música. Li o texto na época, mas não me trouxe maiores inspirações. Agora, motivado por outras razões, enfrentei novamente o ensaio do professor Bento. E aconteceu o que vulgarmente se comenta: agora caiu a ficha. A botânica tem sim um algo mais. Um algo mais que é mais importante que ela própria.

Vou expor com minhas palavras o que aprendi com o texto do professor Bento, a partir de minha experiência de vida no pensar e viver botânica.

O passeio entre plantas, observando-as, distinguindo as diferenças entre uma espécie e outra, o contato visual com o reino vegetal, nos abre caminho para a percepção de algo muito mais amplo. Nesse caminho, o papel da visão é essencial, pois, sem ela, a compreensão das plantas e o processo que isso desencadeia é impossível.

Ao visualizar cada planta, cada espécie vegetal, o indivíduo percebe que existe uma espécie de organização do reino vegetal que implica a existência de uma ordem, anterior à consciência humana. Anterior a toda a sua produção cultural, que independe, portanto, do homem.

Todo esse aprendizado e a vivência dessa ordem preexistente podem se transformar num caminho de experiência espiritual. Isso, independentemente do nível de conhecimento em botânica que se adquire e possui. Interessa o processo. Diz o professor Bento: “No perfil da planta, assim se abre um caminho que pode conduzir à verdade da natureza: no vegetal nenhuma fissura separa o ser do aparecer e toda a realidade da planta se entrega ao olhar que a percorre”. E essa pureza na relação homem e natureza, homem e planta, o faz escrever: “… a botânica é mais que uma forma de conhecimento; ela fornece o símbolo da inocência perdida na história dos homens”. É como se o experienciador da planta na natureza voltasse para os tempos de Adão e Eva no Paraíso. Quando ainda não havia ocorrido o “pecado original”. É o contato primevo com a natureza, não “contaminado” pela cultura. Contato esse que é também com a realidade pura que tange a cada um de nós.

Nessa linha de pensar, o professor Bento escreve: “A botânica é menos um conhecimento do que uma terapia das paixões ou uma ascese da alma”. Ascese que entendo como “o esforço visando à perfeição espiritual por meio de uma constante disciplina da vida”. Ou seja, o que realmente interessa na botânica, repetindo, não é o saber botânica, mas o percorrer do caminho para essa forma de conhecimento.

Para que tudo isso ocorra, é necessário o atendimento a uma exigência: o exílio. Nas palavras de Bento, para que “a consciência possa, assim, coincidir no instante com a visão e para que possa tornar-se o espelho impessoal da natureza, é necessário o exílio”.  É necessário afastar-se totalmente da cultura, de tudo aquilo criado e pensado pelo homem. Deve-se aprender a isolar-se na natureza.

Vilém Flusser, em sua obra filosófica, trata desse aspecto da cultura. A cultura cria véus diante da natureza que impedem, no caso, um contato original de homem e planta. Não vemos uma árvore como natureza, mas como um símbolo: o próprio nome com a qual a batizamos; como pulmão que oxigena o ar; algo que nos dá sombra e abrigo (no sentido de guarda-chuva mesmo). São véus que impedem um contato direto de homem e planta como o descrito por Bento. Por isso a necessidade de exílio.

Para que a integração com a natureza na vida “selvagem” seja absoluta, não deve restar nenhum vínculo com a civilização, suas imagens e seus véus. Com os véus, o contato de homem e planta é impedido e a consciência não coincide com a visão e não pode se tornar o espelho impessoal da natureza. Daí, repetindo, o exílio.

III.-

Diante disso tudo, o que eu chamei no início de “loucura” dos botânicos transformou-se numa característica quase lógica, justificando o comportamento de todos aqueles personagens que mencionei de início. O que os movimentava, instintivamente, talvez era a busca da experiência espiritual que entreviam em suas ações e que fornecia as forças necessárias para movimentá-los, enfrentando a solidão, e de alguma maneira, cada um a seu modo, uma forma de exílio, para vivenciar a relação homem e planta em toda a sua pureza original. Um comportamento estranho dos botânicos, meio que comum a todos, que os estimulava a enfrentar a natureza selvagem para estudar e ver como as plantas estavam (dasein).

Penso que, talvez, essas palavras sirvam como um sinal de alerta e atenção para os botânicos iniciantes e todos aqueles que venham a se interessar pelas plantas e pela natureza.

Finalizando, em breves palavras, música é o processo inverso da botânica.  Começa com a cultura. Um artista organiza diversos sons, criando uma música que, por sua vez, atinge outros seres humanos. Que a ouve e permite-se inebriar-se por seus sons. Talvez cada um, embevecido a seu modo, de acordo com sua constituição, eleve-se aos recônditos mais desconhecidos de sua alma; a um outro tipo de realidade. Aqui, o agente promotor da experiência não é a visão, mas a audição.

Recordo-me então do senhor Vicente. Uma pessoa muito simples, sempre sério, voltado para o trabalho. Negro. Conheci-o na empresa de jardinagem onde trabalhei aos 17 e 18 anos. Foi ele quem me ensinou os primeiros nomes científicos de espécies vegetais, sentado com a prancheta e desenhando jardins. Todas as tardes, saía um pouco antes do final do expediente e dirigia-se para a TV Record, na Rua Consolação, não longe da Avenida Paulista. Lá, ele era músico. Uma vez, curioso, entrei pelos corredores da TV e o vi tocando um instrumento na orquestra: estava lá um homem vibrante, expansivo e imensamente alegre.

RG. 29.nov.2015.

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