Conservação da flora e fauna brasileira

Estamos incluindo abaixo o texto da palestra do Professor Friedrich Gustav Brieger, Professor Emérito da USP e UNICAMP, realizada em 15 de Março de 1973, no pequeno auditório do MASP- Museu de Arte de São Paulo, em São Paulo, SP.

O texto é de impressionante atualidade principalmente por imaginar que o sistema econômico deve ser pensado em termos ecológicos: pensar-se mais no mediato e não sermos imediatistas. Em certo sentido é precursor da Encíclica Laudato Si, do papa Francisco, elaborada em maio de 2015, quarenta e dois anos após.

RGPMA.

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Palestra: 15. III. 1973.

Conservação da flora e fauna brasileira.

Dr. F. G. Brieger, Prof. Emérito USP e UNICAMP.

Meus senhores e minhas senhoras,

Agradeço o convite párea apresentar hoje à noite, como início de uma série de palestras sobre ”Preservação da Flora e Fauna Brasileira”, algumas considerações sobre os efeitos se não prováveis, pelo menos possíveis do desenvolvimento rápido que ocorre hoje no Brasil, efeitos estes maléficos ou não, sobre a flora e fauna e assim sobre o ambiente no qual o povo brasileiro terá que viver no futuro. Talvez se pergunte quais as  minhas credenciais para tecer considerações sobre esse assunto. Há mais de 35 anos estou estudando, no Brasil, a evolução de espécies tropicais, silvestres ou cultivadas. É um fato amplamente comprovado que a evolução dos seres vivos segue uma linha em geral progressiva, deformas mais simples para outras mais complexas, com organização mais aperfeiçoada, as quais paulatinamente substituem os elementos antes existentes. Assim, a evolução, de um lado consiste num progresso, um melhor desenvolvimento, e de outro lado, numa destruição do que havia antes e que parece assim superado. Também o desenvolvimento do homem corre este mesmo perigo: que o progresso e o desenvolvimento poderão conter um elemento destrutivo, e não só destrutivo de um modo geral, mas realmente autodestrutivo. Que isso também ocorre no desenvolvimento de nosso país, no fundo realmente todos sabem, embora talvez prefiram ignorar. Por exemplo, havia, em tempos não muito remotos, uma ampla fonte de alimentação de natureza proteica em nossos rios, cheios de saborosos peixes de água doce, mas, numa cidade como Piracicaba, que está crescendo em ambos os lados de seu rio, do mesmo nome, estes peixes quase desapareceram, devido à poluição pelas cidades e aldeias que neste rio depositam os seus esgotos, cada dia mais volumosos, e pelas substâncias que as indústrias de açúcar, papel e de produtos químicos jogam com abundância dentro de suas águas. Hoje é mais fácil comprar peixes do mar, distante várias centenas de quilômetros, que do rio. Para substituir o que a natureza oferecia às portas das casas, dentro da própria cidade, seria necessário estruturar um complexo sistema econômico, uma pesca eficientemente organizada do mar, entrepostos de venda centralizados nos portos, meios de transporte em frigoríficos numa rede extensa para o interior. Se nessa estrutura econômica moderna alguma coisa falhar, não haverá recursos imediatos para evitar falta de alimento. Isso acontece, já, em todo o mundo, e os jornais de hoje estão cheios de noticias sobre a falta de víveres em cidades russas, que tem que adotar sistemas de racionamento; sobre a falta de viveres e a necessidade de sua importação no Chile; sobre dificuldades devido às greves na Inglaterra e sobre outras situações sérias ou mesmo desastrosas análogas. Há mais de que cem anos, Malthus e outros cientistas advertiram a humanidade de que o crescimento constante da população mundial, exigindo cada vez mais espaço para as moradias e as instalações técnicas, industriais ou administrativas, forçosamente reduziriam não somente a área a ser usada para a produção de alimentos naturais, mas que a destruição do ambiente natural conduziria fatalmente a uma poluição insanável da atmosfera, dos solos, dos cursos d’água e, mesmo, do mar. Mas ao mesmo tempo que se pinta em cores negras o futuro da humanidade, sugere-se o remédio: um planejamento e longo e curto prazo, uma atitude bem dosada de progresso e de conservação.

Qual é a nossa situação, de brasileiros, nesta situação mundial? Certamente não existem ainda os problemas do suleste asiático, com a sua superpopulação combinada com a falta de organização e previsão, pois o Brasil é um dos poucos países do mundo com extensão de área enorme e uma população proporcionalmente diminuta, de modo que pode parecer de boa política nacional aumentar a população para obter mão de obra abundante e para ocupar as áreas ainda não habitadas, criando uma indústria e ao mesmo tempo um mercado de absorção destes produtos, pois somente assim, pelos conceitos da atualidade, o Brasil se tornará um país desenvolvido. Pode-se dizer que o povo brasileiro em toda sua história teve uma tremenda sorte. Como os norte-anericanos, também os colonizadores brasileiros enfrentaram um território vasto, mas fracamente povoado, com flora e fauna ricas e com recursos minerais amplos. Enquanto nos Estados Unidos a penetração para o interior, do Atlântico para o Pacífico, foi essencialmente feita por agricultores, que imediatamente aproveitaram as terras mais férteis, os nossos bandeirantes puxaram as fronteiras do país até os contrafortes dos Andes, em excursões apenas de penetração e exploração, mas não de ocupação. Houve porem outra e profunda diferença: os colonizadores norte-americanos, vindos da Europa, encontraram condições climáticas e de flora e fauna muito semelhantes às das terras de sua origem,  e trazendo consigo as plantas ou os animais domésticos, logo podiam implantar uma agricultura  eficientemente, usando os mesmos métodos que os seus antepassados na Europa tinham elaborado e usado durante centenas ou mesmo milhares de anos. Os colonizadores do Brasil penetraram em áreas tropicais, sem nenhuma experiência de como proceder para arrancar do solo a base alimentar. Então eles imitaram as técnicas dos indígenas: destruir áreas de mata, com a sua terra naturalmente fértil, plantar e colher, até que a terra nestes lugares estivesse exausta, e então abandonar estas áreas a sua própria sorte, e derrubar nova área de mata ou cerrado. Se os pastos eram fracos, permitindo a alimentação de poucos animais apenas por unidade de área, isto não preocupava, pois a área disponível parecia interminável. Quando se precisava de madeira para construções e outros fins, a natureza em milhares de anos tinha produzido uma reserva aparentemente infinita de árvores, de muitas qualidades, sendo apenas necessário derrubá-las e usá-las. Não se precisava nem pensar em substituir estas árvores, pois havia tantas. Num processo economicamente prejudicial, queimavam-se extensas áreas, somente para usar a lenha e as áreas assim devastadas foram deixadas a sua própria sorte. Não se pensou, em um só momento, que a técnica, que dava bons resultados, numa população de algumas centenas de milhares de indígenas, não poderia dar certo de forma alguma, quando surgissem milhões de pessoas, usando máquinas que fazem o serviço de centenas de trabalhadores. Este tipo de procedimento certamente tem trazido lucro imediato para alguns, mas representa um desgaste de capital, e assim é inadmissível numa economia planejada a longo prazo.

Este espírito persiste de fato no presente, e posso citar dois exemplos. Visitei a cerca de 25 anos ou mais, uma grande fábrica de papel, no Paraná. Os implantadores desta indústria colocaram a fábrica no meio de uma área de pinheiros brasileiros, reuniram um excelente grupo de técnicos e químicos para que a fabricação fosse eficiente e o produto de alta qualidade, e organizaram o mercado e a rede de distribuição do papel produzido, mas não se preocupavam com a fonte de matéria prima, pois tinham tantos pinheiros. Eles imitaram, até certo limite, as técnicas elaboradas em países desenvolvidos. Usaram uma tecnologia aperfeiçoada, seja pela importação de especialistas estrangeiros, ou pelo envio de brasileiros para treinamento no estrangeiro e assim, com esforço mínimo brasileiro, organizaram a produção. Enquanto na Europa o fornecimento da matéria prima está bem organizado, esse cuidado não parecia necessário no Brasil, porque havia muitas reservas naturais. Mas chegou o dia em que a fábrica ficou no meio de uma área devastada e a madeira teve que ser transportada em estradas, para isso construídas, até de trinta quilômetros de distância. Não se tinha pensado em empregar esforços e dinheiro para substituir, paulatinamente, o que foi gasto. Importa-se então um técnico, que, conforme me lembro, não tinha experiência em silvicultura tropical, para iniciar o reflorestamento em grande escala, adquirindo sementes em vagões de qualquer procedência e plantando tudo misturado, alguns milhões de árvores por ano. Talvez este modo de criar uma nova floresta de araucária tenha dado certo, mas não tenho dúvida de que teria sido mais eficiente do ponto de vista econômico-financeiro, estabelecer um planejamento inicial e previdente, deixando bosques naturais de pinheiros para que distribuíssem as suas sementes e para que assim a vegetação natural, adaptada a região, partindo destes bosques deixados, se regenerasse. Isto teria sido possível, pois ao longo de caminhos ou estradas num pinheiral natural, nascem pinheiros novos, que não conseguem porém crescer dentro do pinheiral fechado e assim sombrio.

Parece-me que o povo brasileiro acostumou-se a viver como os filhos de família abastada, gastando o capital que parece inesgotável e comprando os serviços de terceiros, muitas vezes estrangeiros, em vês de fazer um esforço próprio. Eram estas as características da atitude brasileira, na fase antiga da colonização, que persistem até hoje: de um lado o “plantando dá” de qualquer jeito e quando não der, recorrer-se a conhecimentos de alheios, aplicando-os sem preocupação.

Grandes áreas nas nossas serras foram devastadas pela derrubada e queima de árvores com o fim da obtenção de carvão, necessário durante aquelas épocas para muitos fins, e o solo assim perdeu a sua proteção natural contra a erosão. Mais recentemente estas serras foram cortadas pelas grandes rodovias modernas e o inevitável e mesmo previsível ocorreu: grandes massas do solo, não mais protegido, se movimentam sob o efeito de chuvas e as estradas ficam enterradas e então impedidas, como aconteceu há poucos dias tanto na Rio-Bahia como na São Paulo-Curitiba. Será que, do ponto de vista da economia do país, pode-se considerar compensador o lucro dos lenhadores, que devastaram a mata natural, em comparação com a atual que despreza constante da manutenção do leito das estradas? Num planejamento econômico a prazo, teria sido mais certo manter a mata onde os declives o indicassem, para evitar uma erosão progressiva e às vezes excessiva subsequente. Mas isto exige uma outra forma de pensar: não visar lucro imediato que resulta em prejuízo maior para o futuro.

Se tais perguntas representam um problema sério nas áreas já devastadas, obrigando os planejadores a gastar importâncias respeitáveis para corrigir os erros do passado, tal planejamento se torna mais importante e mesmo urgente na invasão desenvolvimentista da enorme reserva representada pela Bacia Amazônica. Não pode haver a mínima dúvida de que esta reserva não deverá nem poderá ficar improdutiva, mas torna-se indispensável um rigoroso planejamento técnico e econômico em bases cientificas, antes que seja tarde demais, evitando a repetição do que aconteceu aqui no sul do país. Deve-se levantar de novo a questão sobre o que será mais adequado para o país: uma exploração ultra-rápida, visando lucros imediatos e arriscando um futuro incerto, ou proceder mais lentamente e com muita cautela? Lí nos últimos dias, no grande jornal “O Estado de São Paulo” uma ampla reportagem sobre o projeto Jarí, ao longo deste rio que separa o Pará do Amapá. Numa vasta área, que ocupa um trecho muito largo entre o Amazonas e a fronteira das Guianas, um consórcio, tendo já reunido uma centena de técnicos, planeja o plantio, em curto prazo, de 100 milhões de pés de “Melina” e 50 milhões de pinheiros, para nelas basear uma grande indústria que produzirá mil toneladas de celulose por dia, para fabricação de papel, 300.000m3 de compensados por ano, 150.000 m3 de laminados e 225.000 m3 de madeira para móveis. Mas o jornal traz outras informações. Assim, na ânsia de chegar rapidamente a uma ampla produção, foram usadas máquinas pesadas para remover a mata, e depois as mudas foram plantadas, mas cresceram muito mal. Chegaram então os técnicos responsáveis, à conclusão  de que as máquinas removem uns 15 cm. da camada superior do solo, e assim se torna evidente que eles não sabiam antes que isto terá resultados fatais em solos tropicais, sempre de pouca profundidade, pois logo se chega ao subsolo estéril. Fazendo empiricamente esta grande descoberta, de uma coisa que até o nosso caboclo já sabe, que não se deve remover as camadas superiores do solo, resolveram aplicar outra técnica: a derrubada da mata pelo machado e a sua queima no lugar onde caem os troncos. Eles confiam, mas provavelmente não tem certeza disso, nem poderiam ter, que o fogo não destruirá os micro organismos, vermes e outros animais do solo, necessários para a decomposição e a incorporação do material orgânico no solo, e esperam que as chuvas não removam  as cinzas minerais antes que  possam ser incorporadas e ficadas ao solo. Deve-se considerar outro ponto. A mata tropical é extremamente polimorfa, com mais de 200 espécies diferentes por hectare, mas no Jarí se planeja plantar apenas duas espécies. Ambas são de origem alienígena, e assim não se pode prever quais as pragas e moléstias capazes de ocorrer no desenvolvimento natural lento de tais essências, nem se ambas estão adaptadas realmente às condições extremas do clima que periodicamente ocorrem. Deverá estar plantado um total de 40 milhões de árvores ainda nestes meses, e outros 409 milhões até 1978, para no fim atingir um total da ordem de 150 milhões. Foram escolhidos para o plantio nesta escala, duas espécies de essências, a Melina originária da Ásia, ao que parece muito plantada na África, e o Pinus de Honduras, ambas estrangeiras. Será que já existem experiências suficientes, mostrando que ambas se adaptarão bem ao nosso clima, que não terão pragas e moléstias, que, em extensas monoculturas, facilmente podem chegar a dimensões de epidemias com difícil combate? Não tenho dúvida nenhuma que o nosso Governo deve ser elogiado pela energia com que constrói estradas e abre a vasta Amazônia, implantando ao longo destas estradas, núcleos pequenos, habitados. Mas parece arriscado, sem estudos e experimentos prévios e cuidadosos, destruir em vastas áreas o que existiu e se criou em milênios, tirando um certo lucro imediato, mas incerto na sua persistência. Suponho que o consórcio norte-americano que ganhou a concessão, fez os seus cálculos para obter lucro a prazo curto ou médio ou, na pior hipótese, perder pouco dinheiro nesta especulação, como já tem acontecido com a Ford ou a Firestone, quando tentaram criar vastas plantações da borracha em Fordlândia; mas é preciso lembrar que também, nestes empreendimentos não houve um lucro ou progresso a curto, nem a longo prazo, para o Brasil.

Não pode haver dúvida de que o Brasil, pais de tão grande sorte no passado, que pôde justificar a expressão que “Deus é Brasileiro” muito ganhou com a introdução do café, da cana de açúcar ou do Eucaliptus. As duas primeiras culturas mencionadas penetraram lentamente no país até atingir a sua grande extensão atual. Durante longo período, lavradores e depois técnicos e cientistas fizeram as suas experiências, melhorando as variedades, os métodos de cultivo e de tratamento de pragas e moléstias. Na introdução de Eucalyptus, a liderança coube a um silvicultor de ampla experiência, Mário Navarro de Andrade, e a sua expansão foi proporcionalmente lenta, quando comparada com a extensão que se dá hoje ao plantio de pinheiros, do gênero Pinus, gênero inexistente em todo o território brasileiro. O que recomenda esta essência é que ela dá bom rendimento em outras zonas, especialmente naquelas onde é nativa.

Não seria interessante que se começassem estudos sérios e amplos sobre o valor de nossas próprias essências? A esse respeito devo lembrar o que ocorreu na Reunião Anuial da Sociedade Brasileira de Botânica, neste ano, em Pelotas. Um Agrônomo experimentado, Chefe de uma Estação Experimental, durante longos anos, em Minas e atualmente Diretor da Faculdade de Agronomia de Brasília, Esequias Heringer, relatou experiências com árvores do Cerrado, produtoras promissoras de cortiça para fins industriais. Informou sobre a formação de cortiça em árvores jovens por ele plantadas, no seu ambiente natural, nos cerrados do Distrito Federal, com resultados satisfatórios e boa qualidade da cortiça obtida, e sugerindo eventualmente um plantio em escala, ao invés de destruição atual dos exemplares ainda existentes. Então se levantou outro colega, perguntando se não seria mais indicado importar o carvalho de cortiça que tão bons resultados dá em seu país de origem. Sempre se repete assim a opinião de que será melhor importar produtos estrangeiros, em vez de trabalhar e identificar espécies nacionais, já adequadas a nosso clima, pois em ambos os casos torna-se necessário um trabalho de melhoramento genético das variedades e um aperfeiçoamento de técnicas de cultivo. A resposta foi dada imediatamente pelo próprio Heringer, que lembrou que este carvalho do mediterrâneo é adaptado a condições ecológicas muito especiais, e não se comporta bem em outros climas. Insisto que deveríamos usar sempre que possível, o material que já existe há muitas centenas de anos no nosso clima, e não somente copiar o que se faz no estrangeiro.

Esta contribuição apresentada no Congresso, mostrou o pouco que sabemos sobre as qualidades dos elementos da nossa flora. É um fato muito estranho que nem mesmo tenhamos conhecimentos razoáveis sobre a flora da vasta área do território brasileiro. Outros países tem feito esforços  para conhecer, até com minúcias, de que se compõe a sua vegetação natural, e a fauna que nela vive. Para esta tarefa, no Brasil, os brasileiros relativamente pouco tem contribuído principalmente por falta de profissionais adequadamente preparados e de estímulo para o seu trabalho, em decorrência da falta de previsão de autoridades superiores. Se alguém pergunta, quantos experimentos botânicos existem no Brasil, a resposta será provavelmente um número ridículo, talvez de uma centena num país de milhões. O “botânico” é considerado como um profissional de pouca utilidade, espécie curioso que se expressa em termos incompreensíveis para o leigo, pois usa nomes em latim para denominar árvores ou qualquer outra planta, e que não contribui para o progresso do país, com alguma coisa que possa ser avaliado em termos financeiros. Os conceitos em outros países são bem diferentes, e constantemente o Brasil é percorrido por especialistas, botânicos e ecólogos, que coletam material, fazendo observações e levam depois tudo para suas casas, em Nova York ou Londres, para análise dos dados e publicação dos resultados. Devemos ser gratos a esses especialistas, pois assim se adquirem pelo menos alguns conhecimentos, mas devíamos ter feito muito mais para que os nossos docentes pudessem estimular os seus próprios alunos a fazerem tais estudos. Tive muitas vezes a ocasião de constatar, como professor universitário, que jovens gostariam de fazer excursões e coletar plantas ou animais, de fazer registros sobre as condições ecológicas de nossa terra, mas quase todos estes alunos depois desistem, e dedicam sua atenção a outros trabalhos que permitem obter empregos públicos ou particulares, pois para botânicos ou ecólogos existem poucas vagas, em geral permanentemente ocupadas e não devidamente aumentadas, em universidades e alguns institutos de pesquisa.

O que tem de ser feito primeiramente, no nosso país, é um levantamento do que existe e como existe, isto é, um trabalho de classificação e avaliação ecológica, em continuação do que cientistas estrangeiros fizeram no início do século com a publicação da grande obra de VON MARTHIUS.  Com base em tais conhecimentos poder-se-ão tirar conclusões sobre o que deve ser conservado, o que pode ser eliminado, e mesmo quais as exigências para que uma área devastada e poluída possa-se tornar de novo uma área saudável e mesmo útil. Existe em princípio uma grande diferença entre as funções de um agrônomo e de um biólogo e ecologista, embora atualmente muitos engenheiros agrônomos estejam fazendo trabalho de valor sobre a flora e fauna e as suas condições ecológicas. Mas, em princípio, pode-se dizer que o treinamento do agrônomo ou do silvicultor visa a preparação de técnicos que saibam escolher as áreas para o cultivo e como melhorar a produção agropecuária ou florestal, quando o biólogo-ecólogo deve estudar o que existe na natureza e porque existe, sem visar, em princípio em seu aproveitamento ou aumento da produtividade.

Para melhor caracterizar a situação atual posso lembrar o seguinte caso: há alguns anos, a Sociedade Real da Inglaterra resolveu mandar ao Brasil, e ai manter durante alguns anos, uma equipe de primeira linha, para estabelecer um laboratório de campo não muito distante da Ilha do Bananal, que realizasse estudos in loco. Apoiado plenamente por organizações nacionais, como o CNPq, este plano inglês foi posto em execução, tendo sido tornada pública a oferta dos ingleses de custear a estada de biólogos brasileiros que desejasse colaborar no laboratório de campo, bem como o convite a estudantes, com a promessa de dar aos melhores entre eles bolsas, para um aperfeiçoamento posterior junto aos especialistas na Inglaterra. Vieram alguns poucos cientistas brasileiros, pois a maioria não se podia afastar das suas obrigações normais nas suas sedes, como não havia substitutos em número adequado. Não se apresentou nenhum estudante. Os ingleses queriam ainda deixar aqui no Brasil este laboratório implantado e o campo experimental com o seu equipamento, quando voltaram para a sua terra. Mas conforme me consta não teve continuidade no seu trabalho por parte brasileira. Quando fazia ainda parte do Corpo Docente da Universidade Estadual de Campinas, participei dos estudos preparatórios para a implantação de um Curso de Ecologia, de nível pós-graduado.  Não é difícil elaborar um programa para tal Curso; é um pouco mais difícil reunir um corpo docente especializado, embora existam especialistas brasileiros capazes e em número adequado, mas certamente a maior dificuldade é saber-se se tal curso terá alunos, em vista da pouca possibilidade deles encontrarem emprego adequado quando terminarem esta especialização. Parece-me estranho que o Brasil inicia a ocupação de vastas áreas da Amazônia, antes de fazer um levantamento cientifico completo do que nela existe e porque existe. Não há tal levantamento, porque o Brasil nunca se preparou em dispor de técnicos preparados em número suficiente para realizar essa tarefa urgente, dando prosseguimento aos estudos de Duke e de Lecointe sobre a flora amazônica. É de se esperar que do atual esforço magnífico do Governo em prol da Educação surjam vários cientistas jovens dispostos a levar adiante esses trabalhos com entusiasmo e proficiência. Mas talvez, então a floresta amazônica já não exista mais.

Os jornais trazem noticias de que se pretende traçar estradas e implantar atividades industriais em áreas de Reservas Florestais ou Parques Nacionais, nos poucos que ainda restam. Os engenheiros, planejadores e executores, certamente são homens de alta competência nas suas especialidades. Eles construirão estradas pelas melhores técnicas, mas considerando a terra, o solo, o subsolo, como matéria morta que pode ser moldado à vontade. Se depois a erosão pela água e pelo vento, nas encostas, assume proporções assustadoras e causa prejuízos financeiros, vultuosos, isto não é culpa da engenharia, mas sim pelos efeitos lamentáveis da natureza agressiva, cuja previsão não é, evidentemente, da competência da engenharia. Se as estradas com as moradias, postos de gasolina, restaurantes e outras atrações turísticas, se transformarão em base da penetração de lenhadores ou posseiros, isto também não será culpa dos engenheiros, nem estes poderão ser responsabilizados quando estas estradas e habitações se tornam um foco de destruição do equilíbrio biológico natural e geram a poluição que, como um câncer invade toda a área a partir do foco criado por uma nova estrada num Parque Nacional ou Reserva Florestal. A medicina se preocupa em evitar que se criem focos cancerosos no corpo humano, mas o planejamento desenvolvimentista descuidado é capaz de implantar focos de caráter maligno na natureza, e mesmo em áreas que por outras razões ponderáveis foram consideradas como Reservas Nacionais.

Outro aspecto curioso da questão é o seguinte. Nos países desenvolvidos representa parte da educação da juventude ensinar tudo possível sobre o seu país, a sua história, a sua geografia, a sua flora e fauna, e o seu desenvolvimento. No Brasil está se fazendo a mesma coisa, com uma exceção: não interessa nem a vegetação nem a fauna do país, nem a situação básica encontrada no início da penetração. Ouvi até esta opinião: porque ensinar alguma coisa aos jovens sobre o meio ambiente inicial, coisa totalmente inútil que deve desaparecer? Não seria importante manter Reservas Naturais de flora e fauna, da mesma forma como se conservam antigas igrejas e casarões? Porque a história do Brasil, das últimas centenas de anos, merece ser conhecida, mas não a base de sua existência, que era a sua flora e fauna iniciais?

Talvez esta atitude seja uma consequência da luta que os antigos colonizadores, desbravadores das terras, tinham que vencer contra a natureza exuberante do trópico, sempre invadindo as poucas terras então cultivadas. Esta guerra está amplamente vencida pelos lavradores, mas estes mantém uma atitude, se não de inimizade contra a natureza, pelo menos de indiferença total. O brasileiro se esqueceu que em todas as guerras, o vencido acaba pro se vingar: as terras devastadas se tornam áridas e estão perdidas para a agricultura e a destruição do equilíbrio biológico pode conduzir a poluição, prejudicial até para a saúde do homem. Além de destruidor, o brasileiro continua a se comportar como explorador. Observei em parques Naturais e Reservas, que plantas raras, orquídeas, bromélias, begônias ou passarinhos e borboletas são caçados e levados para casa, ou para morrer no cofre de um automóvel ou depois de um curto período de tentativas de manutenção e de cultivo.

Há uma certa aversão do brasileiro contra a natureza que se expressa de várias formas. O brasileiro não sente a necessidade de descansar num ambiente sadio e natural, como acontece com os outros povos e especialmente, com as populações de grandes cidades, cansadas das massas de cimento e asfalto. Nas pequenas aldeias nossas sempre havia uma praça central, bem ajardinada, suficientemente extensa na época, pois as casas tinham quintais arborizados e as fazendas, com seus bosques, estavam perto. As cidades cresceram, mas não se aumentaram as praças, e os quintais foram cimentados. Não existem, nas nossas cidades, parques naturais ou planejados e mantidos por arquitetos paisagistas, para o recreio das famílias, parques como existem em Paris, Londres, Berlim, N.York, México, etc. Notam-se indícios de que se pretende implantar este tipo de recreio e descanso familiar também no Brasil, mas parece-me que a destruição das poucas áreas verdes existentes, mesmo em São Paulo, é mais eficiente e rápida que a criação desses parques. Quando a derrubada de casas se torna necessário para abrir avenidas e vias de transporte, nem a despesa de desapropriações pesa, mas para manter ou aumentar áreas verdes faltam recursos, e se destroem sem dor as poucas porventura existentes.

O que tentei dizer, já foi dito por muitos outros e de uma forma certamente mais eloquente e convincente. Mas para que estas advertências calem profundamente no espírito dos dirigentes, torna-se necessário repeti-las sempre.  Assim, em conclusão, quero resumir o seguinte:

O povo brasileiro teve a sorte de penetrar numa das áreas mais ricas em recursos naturais dos quais a sua flora e fauna formam uma grande parte. Esta não somente representa recursos naturais importantes, mas é ela principalmente o fator determinante do clima e do ambiente em geral em que vivemos. É necessário que este grande capital de base será preservado na medida do possível, e seja aproveitado com o máximo de eficiência dentro de um espírito conservador: Tudo se deve fazer para evitar que o país se transforme em região árida e poluída pela pressa de um desenvolvimento ultra rápido. Não existe a alternativa: desenvolvimento ou conservação, pois ambos são importantes para o futuro do país.

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