{"id":162,"date":"2012-04-23T18:04:55","date_gmt":"2012-04-23T18:04:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.rodolfogeiser.com.br\/site\/?p=162"},"modified":"2012-04-23T18:04:55","modified_gmt":"2012-04-23T18:04:55","slug":"pos-historia-um-paralelo-entre-cultura-e-natureza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/2012\/04\/23\/pos-historia-um-paralelo-entre-cultura-e-natureza\/","title":{"rendered":"P\u00f3s-Hist\u00f3ria? Um paralelo entre Cultura e Natureza."},"content":{"rendered":"<p>\t\t\t\tEm diversos momentos de minha vida, durante estes \u00faltimos anos, tenho utilizado em di\u00e1logos o termo p\u00f3s-hist\u00f3ria. A maioria das pessoas o estranha e me vejo intelectualmente obrigado a expor em m\u00ednimas palavras o que estou pensando. Em primeiro lugar, devo esclarecer que n\u00e3o o estou utilizando no conceito adotado pelo nipo-norte-americano FUKUYAMA, que o utilizou l\u00e1 pelos anos 1980. De\u00a0 maneira bastante resumida, &#8211; e talvez simplificada,- ele dizia que, em fun\u00e7\u00e3o de um mundo globalizado e neo-liberal, haveria uma economia mundial \u00fanica, `a qual todos os habitantes do mundo teriam de se curvar e se adaptar. N\u00e3o haveria mais guerras mundiais. Seria o &#8220;fim da Hist\u00f3ria&#8221;.<\/p>\n<p>Tais coloca\u00e7\u00f5es lhe granjearam in\u00fameros inimigos, principalmente entre os historiadores. Por outro lado, ganhou alguns poucos e poderos\u00edssimos amigos: todos aqueles que representam a minoria privilegiada que det\u00e9m a imensa parcela dos recursos financeiros em prol de seus pr\u00f3prios interesses. Surge, em conseq\u00fc\u00eancia, aquilo que muitos de n\u00f3s j\u00e1 comentamos no dia-a-dia: o capital est\u00e1 concentrado nas m\u00e3os de poucos em preju\u00edzo da imensa maioria da popula\u00e7\u00e3o mundial. O preju\u00edzo global passa desapercebido at\u00e9 pelos prejudicados, devido \u00e0 a\u00e7\u00e3o da m\u00eddia comprometida com o capital, e por assim dizer, com a des-educa\u00e7\u00e3o geral. S\u00e3o incalcul\u00e1veis os recursos financeiros exigidos para\u00a0 cria\u00e7\u00e3o da imagem institucional globalizada, a fim de tornar tal situa\u00e7\u00e3o irrevers\u00edvel, como tamb\u00e9m para refor\u00e7ar a tend\u00eancia mundial em n\u00e3o canalizar quaisquer recursos para a educa\u00e7\u00e3o da maioria desprivilegiada. O prop\u00f3sito administrativo-financeiro-cultural \u00e9 claro, pois qualquer dose de educa\u00e7\u00e3o faria com que essas pessoas se conscientizassem e passassem a agir em sentido contr\u00e1rio ao movimento globalizado &#8211; neoliberal ( ou como costumava chamar Leonel Brizola,- neo-colonialista.) O conceito de FUKUYAMA, portanto, \u00e9 nitidamente ideol\u00f3gico, uma vez que parciais e dirigido a interesses espec\u00edficos. Foi tanta a gritaria dos oponentes que at\u00e9 os interessados nas suas id\u00e9ias deixaram de utilizar o termo &#8220;p\u00f3s-hist\u00f3ria&#8221;. Na realidade, em termos pr\u00e1ticos, seu sentido &#8220;foi queimado&#8221;.<\/p>\n<p>Entretanto, o termo pode e deve continuar a ser utilizado, mas com um sentido muito mais amplo e esclarecedor dos tempos atuais da humanidade e sem qualquer v\u00ednculo com a ideologia, pois fornecer\u00e1 subs\u00eddios valios\u00edssimos para cada um de n\u00f3s pensar o momento presente. Para tanto, evocaremos o pensamento do fil\u00f3sofo tcheco-brasileiro VILEM FLUSSER. Seu livro, &#8220;P\u00f3s-Hist\u00f3ria &#8211; vinte instant\u00e2neos e um modo de usar&#8221; publicado em 1983 pela Livraria Duas Cidades, trata de diversas situa\u00e7\u00f5es em que o homem moderno se defronta, tais como sa\u00fade, recrea\u00e7\u00e3o, nossas roupas, nosso trabalho, nossa escola e assim por diante. Mas n\u00e3o \u00e9 nossa inten\u00e7\u00e3o comentar essas linhas de pensamento para chegar ao que estamos pretendendo aqui. Relembremos a defini\u00e7\u00e3o que ele deu ao termo no Gloss\u00e1rio apresentado em seu livro &#8220;Filosofia da Caixa Preta&#8221;, de 1985: &#8220;P\u00f3s-Hist\u00f3ria: processo circular que retraduz textos em imagens&#8221;. Interpretando a defini\u00e7\u00e3o flusseriana, as caracter\u00edsticas da P\u00f3s-Hist\u00f3ria poderiam ser assim resumidas:<\/p>\n<p>1. Predom\u00ednio da imagem sobre o texto. Seriam as Imagens mais eficazes que os Textos para se efetuar a comunica\u00e7\u00e3o e troca de informa\u00e7\u00f5es entre as pessoas? Basta constatar o predom\u00ednio da televis\u00e3o sobre a leitura de livros e a presen\u00e7a maci\u00e7a, em todo o mundo, dos s\u00edmbolos da &#8220;Coca Cola&#8221; e da &#8220;McDonalds\u201d;<br \/>\n2. Comunica\u00e7\u00e3o mundial instant\u00e2nea. Basta constatar as transmiss\u00f5es instant\u00e2neas da F\u00f3rmula Um e Copa do Mundo, onde milh\u00f5es se \u201cglobalizam\u201d com as mesmas imagens e paix\u00f5es;<br \/>\n3. A presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os.\u00a0 Das atividades humanas, torna-se a mais importante de todas, predominando percentualmente sobre a agricultura e a ind\u00fastria;<br \/>\n4. Conceitos b\u00e1sicos tornam-se difusos e confusos. Confunde-se, por exemplo, natureza com cultura ( tulipa e vaca holandesa n\u00e3o s\u00e3o naturais,\u00a0 mas frutos da\u00a0 cultura). A situa\u00e7\u00e3o piora com seres h\u00edbridos como o chester, &#8211; galinha grande\/peru pequeno -, bem como as ovelhas e vacas clonadas. O homem clonado, que acontecer\u00e1 em breve (se \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o existe), n\u00e3o far\u00e1 mais parte do Reino Animal, quando era classificado como homo sapiens, mas ser\u00e1 produto da Cultura Humana, n\u00e3o obstante constru\u00eddo sobre base natural (genes). Outro exemplo \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o real x virtual.\u00a0 Os conceitos expostos acima afetar\u00e3o a percep\u00e7\u00e3o da realidade pelos seres humanos, que ter\u00e3o dificuldades para diferenciar o real do virtual;<br \/>\n5. Recursos naturais e o lixo.\u00a0 Um dos maiores problemas humanos \u00e9 o manejo dos recursos naturais, com um novo elemento altamente agravante que \u00e9 o lixo produzido pela cultura e seu destino na Natureza. Vale ressaltar dois tipos de lixo: o externo, restos industriais, dom\u00e9sticos, produtos t\u00f3xicos injetados no ambiente e tantos outros que interferem no manejo dos recursos naturais; e o lixo interno, representado pelo imenso volume de id\u00e9ias e informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis nos espa\u00e7os ambientais, que interferem diretamente na mente humana que tem dificuldades em distingu\u00ed-los, diferenci\u00e1-los e digeri-los. Surgem dois profissionais novos para tratar desses lixos, respectivamente, Ec\u00f3logos e Psic\u00f3logos.<br \/>\nTais caracter\u00edsticas, da\u00ed, sim, levam \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o, que pode ser considerada como a uniformiza\u00e7\u00e3o da cultura humana. Uniformiza\u00e7\u00e3o no sentido de sua tend\u00eancia em igualar-se mundialmente, independente de ra\u00e7a, l\u00edngua e na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na realidade, penso que FUKUYAMA pode ter eventualmente detectado tais caracter\u00edsticas do presente momento hist\u00f3rico, mas n\u00e3o as verbalizou e muito menos as exp\u00f4s. Talvez tenha guardado para si tais informa\u00e7\u00f5es, reduzindo seu conte\u00fado \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica da vit\u00f3ria do Capitalismo sobre o Socialismo. Do capitalismo global,\u00a0 \u00fanico,<br \/>\ninvenc\u00edvel. Ponto final da cultura humana a partir do qual nada mais mudar\u00e1. Donde a indaga\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria: ser\u00e1 o fim da Hist\u00f3ria?<\/p>\n<p>Ideologia da iguala\u00e7\u00e3o X Filosofia da diversidade<\/p>\n<p>Iguala\u00e7\u00e3o, seja l\u00e1 do que for, \u00e9 o princ\u00edpio do fim. No caso da Natureza, o que a sustem \u00e9 a diversidade de vida, animal e vegetal, convivendo em equil\u00edbrio. Alterado o equil\u00edbrio, segue-se o desequilibro com a perda do solo, a falta de \u00e1gua, a intoxica\u00e7\u00e3o da cadeia alimentar, a polui\u00e7\u00e3o do ar e das \u00e1guas sob todas as formas. Perdem-se as condi\u00e7\u00f5es essenciais para a sustenta\u00e7\u00e3o da Vida.<\/p>\n<p>Esse cen\u00e1rio vale para o Homem. Talvez o problema ainda n\u00e3o seja sentido pela maioria dos habitantes do planeta. Mas \u00e9 a diversidade de culturas que propicia sua manuten\u00e7\u00e3o e evolu\u00e7\u00e3o. Igualadas as culturas, corre-se o risco da perda da\u00a0 capacidade de cria\u00e7\u00e3o e evolu\u00e7\u00e3o cultural, al\u00e9m do fato de que a iguala\u00e7\u00e3o promove tamb\u00e9m o controle sobre os seres humanos, sobretudo no plano pol\u00edtico. Nazismo puro metamorfoseado atrav\u00e9s da informa\u00e7\u00e3o e da m\u00eddia em globaliza\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Risco na Natureza \u00e9 o seguinte: a formiga sa\u00fava sempre existiu no Brasil antes de sua &#8220;descoberta&#8221;, convivendo entre as demais formas de vida. Derrubadas as matas, desapareceram seus controladores naturais, como os p\u00e1ssaros e os tamandu\u00e1s, e ela se expandiu incomensuravelmente passando a devorar nossas lavouras. Nos morros in\u00f3spitos de Israel tentaram o reflorestamento com 3 ou 4 esp\u00e9cies vegetais adapt\u00e1veis, mas insuficientes para a manuten\u00e7\u00e3o de um estado vital de equil\u00edbrio. Resultado: surgiu uma broca que causa danos irrepar\u00e1veis.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a vis\u00e3o do Ec\u00f3logo em favor da diversidade vale tamb\u00e9m para a cultura humana. E um olhar ecol\u00f3gico sobre as tend\u00eancias da economia mundial vai, certamente, preconizar a desconcentra\u00e7\u00e3o da renda; a promo\u00e7\u00e3o das m\u00e9dias e pequenas empresas, urbanas ou rurais; a diversidade na educa\u00e7\u00e3o e na cultura. O Presidente Clinton pensou um pouco nessa linha quando tentou desarticular parcialmente o monop\u00f3lio de inform\u00e1tica de Bil Gates. Mas com a vit\u00f3ria dos republicanos, suas propostas foram derrotadas e esquecidas.<\/p>\n<p>Podemos questionar: se as caracter\u00edsticas que envolvem o conceito de P\u00f3s Hist\u00f3ria de FLUSSER levam \u00e0 mesma id\u00e9ia de globaliza\u00e7\u00e3o, indiretamente defendida por FUKUYAMA, ent\u00e3o\u00a0 ambos os conceitos s\u00e3o id\u00eanticos? Tal conclus\u00e3o n\u00e3o seria verdadeira. Se f\u00f4ssemos desenhar o conceito de FUKUYAMA, criar\u00edamos uma reta e um ponto, enquanto que no desenho conceitual de FLUSSER, far\u00edamos um c\u00edrculo. Eu ainda proporia representar o conceito flusseriano por uma espiral, como aquela que envolve as p\u00e1ginas dos cadernos escolares. Porque os movimentos circulares v\u00e3o sempre ocorrendo numa seq\u00fc\u00eancia cont\u00ednua, ao passo\u00a0 que no movimento espiral, o processo iniciado n\u00e3o volta ao mesmo ponto de origem, mas vai somente em sua dire\u00e7\u00e3o, seguindo sempre o movimento circular, mas ligeiramente afastado do anterior. Sugere, pois, uma evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>FLUSSER pensou assim: Pr\u00e9-Hist\u00f3ria \u00e9 o dom\u00ednio de imagens (lembram-se dos desenhos encontrados nas cavernas?) e aus\u00eancia de textos; Hist\u00f3ria \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o de imagens em textos; e P\u00f3s-Hist\u00f3ria, \u00e9 a retradu\u00e7\u00e3o circular de textos em imagens. Eu diria que,\u00a0 com o predom\u00ednio da imagem sobre o texto, ocorre uma esp\u00e9cie de invers\u00e3o de valores para uma grande maioria da humanidade, enquanto que uma minoria, previamente vacinada e em certo sentido imune \u00e0 propaganda, vai\u00a0 acumulando informa\u00e7\u00f5es e as vai repassando \u00e0 propaganda e ao marketing, a fim de\u00a0 manter o controle da maioria. Como as informa\u00e7\u00f5es v\u00e3o se acumulando exponencialmente, o movimento da Hist\u00f3ria n\u00e3o seria propriamente um circulo, mas um movimento circular continuo em forma de espiral. A Hist\u00f3ria mesmo nunca vai se acabar, como os cr\u00edticos de FUKUYAMA conclu\u00edram.<\/p>\n<p>Para FLUSSER, no meu entender, interessa ter um conceito para P\u00f3s-Hist\u00f3ria, que sirva simplesmente de modelo para pensar o momento presente. Uma vez captado e utilizado o modelo, pode ser descartado, ou seja, n\u00e3o necessita ser eternizado em ideologia.<\/p>\n<p>Rodolfo Geiser,<br \/>\nEngenheiro Agr\u00f4nomo.<br \/>\n1\u00ba semestre de 2006.<br \/>\n<span \n                data-original-string='abeoZb9EVteM\/ywkM\/hn8w==862Mxud4UiikKv+1i+0uaGrZ5nZqxXqBhPPCvdD+MZkmKg='\n                class='apbct-email-encoder'\n                title='This contact has been encoded by Anti-Spam by CleanTalk. Click to decode. To finish the decoding make sure that JavaScript is enabled in your browser.'>ro<span class=\"apbct-blur\">***********<\/span>@<span class=\"apbct-blur\">*****<\/span>om.br<\/span>\t\t<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em diversos momentos de minha vida, durante estes \u00faltimos anos, tenho utilizado em di\u00e1logos o termo p\u00f3s-hist\u00f3ria. A maioria das pessoas o estranha e me vejo intelectualmente obrigado a expor em m\u00ednimas palavras o que estou pensando. 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