{"id":393,"date":"2012-06-01T16:50:04","date_gmt":"2012-06-01T16:50:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.rodolfogeiser.com.br\/site\/?p=393"},"modified":"2012-06-01T16:50:04","modified_gmt":"2012-06-01T16:50:04","slug":"o-jardim-dos-mcnamara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/2012\/06\/01\/o-jardim-dos-mcnamara\/","title":{"rendered":"O jardim dos Mcnamara"},"content":{"rendered":"<p>\t\t\t\tEm 2005 elaboramos um projeto de paisagismo para a resid\u00eancia em Ribeir\u00e3o Preto, do casal McNamara \u2013 ambos <em>cientistas-amantes da Natureza<\/em>.\u00a0 A solicita\u00e7\u00e3o do cliente chamou-nos a aten\u00e7\u00e3o pelo fato de se basear unicamente no plantio de um bosque, em plena \u00e1rea urbana, tal como se fosse uma floresta.\u00a0 O terreno compreendia uma \u00e1rea total de 900m2, na qual caberia somente 400 m2 para o jardim (veja fotos em nosso site na Pasta \u201cPaisagismo \u2013 Jardins Residenciais\u201d).<\/p>\n<p>Com o passar do tempo, a nossa expectativa foi tamb\u00e9m crescendo, paralelamente ao crescimento das plantas, dado o car\u00e1ter inusitado do projeto.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que tomamos a liberdade de indagar ao casal qual a<em> raz\u00e3o oculta<\/em> de sua solicita\u00e7\u00e3o. Em retorno recebemos a carta a seguir transcrita, de John McNamara, cujo conte\u00fado privilegia nosso escrit\u00f3rio, pois ilustra, confirma e amplia as id\u00e9ias que temos exposto na pasta &#8220;Reflex\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ol\u00e1 Rodolfo.<\/em><\/p>\n<p><em>Como falei, a Elaine e eu temos conversado bastante a respeito da motiva\u00e7\u00e3o para criar nossa floresta. Acho que este seria o termo mais apropriado no nosso entender. Sei que pode ser um bosque ou jardim ou reflorestamento ou mata, mas sinto que para mim \u00e9 uma floresta, e \u00e9 isso que eu queria recriar ou deixar aflorar. <\/em><\/p>\n<p><em>Sei tamb\u00e9m que tecnicamente n\u00e3o \u00e9 uma floresta, mas a\u00ed entra um aspecto espiritual, sim. Em termos das dimens\u00f5es espirituais, eu n\u00e3o consigo me sentir em comunh\u00e3o com um jardim ou um bosque. Seria algo organizado demais, faltando uma aleatoriedade fundamental necess\u00e1ria. Para mim, preciso sentir *floresta*, algo puro e algo diferente &#8211; e a\u00ed surgi a dimens\u00e3o espiritual que estava buscando identificar, admito com certa dificuldade. <\/em><\/p>\n<p><em>Talvez usando uma certa analogia, posso dizer que esperar-se-ia encontrar um gnomo num jardim ou uma fada num bosque, mas numa floresta, a\u00ed voc\u00ea vai encontrar esp\u00edritos, poderes, &#8216;coisas&#8217;, nem sempre o que espera, e nem sempre bonzinhos &#8211; encontra-se aquilo que simboliza o n\u00edvel de espiritualidade em que o indiv\u00edduo se encontra. Acho que \u00e9 por isso que algumas pessoas preferem um jardim e at\u00e9 colocam gnomos e figuras bondosas &#8211; algo mais manso, domado, do que uma floresta, que seria algo livre, at\u00e9 de certo modo fora do controle e dom\u00ednio humano &#8211; algo aonde as for\u00e7as evolutivas org\u00e2nicas se expressam livremente, e as for\u00e7as espirituais tamb\u00e9m. H\u00e1 um ciclo de vida &#8211; nascimento, amadurecimento e morte muito claro nessa floresta. Sinto que tamb\u00e9m ocorre algo semelhante em plano espiritual, mas n\u00e3o estou conectado o suficiente para saber o que. O beija-flor morto que est\u00e1 virando adubo de arvore, as folhas ca\u00eddas se reciclando, a renova\u00e7\u00e3o &#8211; tamb\u00e9m positiva na vis\u00e3o geral org\u00e2nica. \u00c9 por isso acho que escolhi o nome <\/em><strong><em>Te Ngahere Whakahau<\/em><\/strong><em>, a floresta rejuvenescida: algo que expressa renova\u00e7\u00e3o tanto do esp\u00edrito quanto da terra. Exemplo: o outro dia come\u00e7ou chover muito forte, senti-me impelido a arrancar a roupa por completo e sorver as cascatas caindo do telado alto (na parte de tr\u00e1s da casa claro). Penso que h\u00e1 algo de renova\u00e7\u00e3o espiritual em se deixar brotar toda essa vida aqui &#8211; pois \u00e9 uma decis\u00e3o que se toma, poderia ter sido lajotas, piscina e churrasqueira.<\/em><\/p>\n<p><em>Lembro que quando depar\u00e1vamos as primeiras vezes com o terreno baldio aqui antes de construir sentimos que algo estava faltando a\u00ed, que nossa habita\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia ficar sem se atrelar a algo maior, sem ser parte de algo vivo. A\u00ed concebemos a id\u00e9ia da integra\u00e7\u00e3o casa-floresta, naquele momento, sim, casa-jardim, talvez a id\u00e9ia do jardim interno. Mas, ao termos que derrubar uma ou outra arvore pioneira para fazer as funda\u00e7\u00f5es sentimos j\u00e1 compelidos a repor aqueles seres por nos mortos. E a\u00ed veio a no\u00e7\u00e3o de floresta e toda uma vis\u00e3o arquitet\u00f4nica e arquitetural da edifica\u00e7\u00e3o. Claro havia no\u00e7\u00f5es pragm\u00e1ticas de sombra, resfriamento no calor de Ribeir\u00e3o, de vistas do verde por toda parte, mas havia essa busca de tornarmo-nos habitantes de uma floresta que dividir\u00edamos com outros seres animais, sejam as formigas, mariposas, p\u00e1ssaros, morcegos. At\u00e9 fiquei triste que os sapos que eu &#8216;salvava&#8217; de esmagamento dos carros na rua durante as chuvas n\u00e3o ficassem aqui; lamento que ainda n\u00e3o t\u00eam lagartos grandes ou tei\u00fas, faltam gamb\u00e1s, sag\u00fcis, tucanos. Fico felic\u00edssimo ao ver uma esp\u00e9cie nova de p\u00e1ssaro pousar aqui, ou uma muda aparecer (quando n\u00e3o \u00e9 de jardim como pitanga, e sim, de arvore de floresta como emba\u00faba). N\u00e3o sei se essa felicidade \u00e9 de esp\u00edrito ou se \u00e9 org\u00e2nico &#8211; h\u00e1 os que n\u00e3o separam as duas coisas. Oscilo muito na minha vis\u00e3o aqui.<\/em><\/p>\n<p><em>Ent\u00e3o Rodolfo, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil simplesmente listar as raz\u00f5es pr\u00e1ticas por ter feito isso, pois h\u00e1 uma outra dimens\u00e3o, n\u00e3o sei bem se \u00e9 motivado no fundo por cultura do meu povo\/fam\u00edlia (da Nova Zel\u00e2ndia), por raz\u00f5es de conserva\u00e7\u00e3o ambiental, por respeito aos demais seres e um sentido de tentar devolver um espa\u00e7o aos seres que habitavam aqui antes de nos n\u00f3s possu\u00edmos do local, de querer ser cercado de um ambiente que nos agrada j\u00e1 que viajamos bastante em busca de locais naturais. E h\u00e1 o aspecto espiritual mais dif\u00edcil de se identificar e explicar &#8211; talvez algo de antepassados celtas, algo que remete aos tempos antes da cristandade, quando n\u00e3o havia a separa\u00e7\u00e3o de corpo e esp\u00edrito. Talvez seja bem a\u00ed a raz\u00e3o de tudo: aqui nesse lugar, sinto que n\u00e3o h\u00e1 essa separa\u00e7\u00e3o de corpo e alma &#8211; posso ser \u00edntegro, inteiro, mesmo que de vez em quando tenho que podar algo ou cortar um galho. Mas isso \u00e9 uma parte interativa &#8211; o aplicado, uma coisa de humano e n\u00e3o de esp\u00edrito. A\u00ed me sinto um &#8216;jardineiro&#8217; de uma floresta, aquele que cuide de uma preciosidade, ou tesouro como disse uma colega hoje. Senti um prazer enorme hoje \u00e0 tarde em colher alguns ramos de jurubeba com frutos e lhe dar. Frutos estes que algum p\u00e1ssaro trouxe e que vingou e cresceu sozinho a\u00ed na floresta. Acho que isso \u00e9 o esp\u00edrito de que falo.<\/em><\/p>\n<p><em>Bem, sei que n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil para voc\u00ea destilar tudo isso, mas acho que d\u00e1 uma no\u00e7\u00e3o de como pelo menos eu (John) penso a respeito. Fique a vontade de extrair, concluir ou condensar o que achar \u00fatil para seu site. A Elaine compartilha muitas das id\u00e9ias que coloquei aqui, mas sei que tem sua vis\u00e3o pr\u00f3pria e que h\u00e1 diferen\u00e7as em como ela pensa isso. Acho que ela ir\u00e1 se manifestar a respeito.<\/em><\/p>\n<p><em>Um grande abra\u00e7o, John.<\/em><\/p>\n<p><em>John Campbell McNamara\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Biologia, FFCLRP, USP, Ribeir\u00e3o Preto 14040-901, Brasil.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Rodolfo Geiser,<\/p>\n<p>5 de Junho de 2012.\t\t<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2005 elaboramos um projeto de paisagismo para a resid\u00eancia em Ribeir\u00e3o Preto, do casal McNamara \u2013 ambos cientistas-amantes da Natureza.\u00a0 A solicita\u00e7\u00e3o do cliente chamou-nos a aten\u00e7\u00e3o pelo fato de se basear unicamente no plantio de um bosque, em plena \u00e1rea urbana, tal como se fosse uma floresta.\u00a0 O terreno compreendia uma \u00e1rea total&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[7,26,31,34,35,38],"class_list":["post-393","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-textos-e-reflexoes","tag-agronomia","tag-natureza","tag-paisagismo","tag-reflexoes","tag-rodolfo-geiser","tag-textos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/393","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=393"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/393\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=393"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=393"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=393"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}