{"id":395,"date":"2012-06-01T17:06:46","date_gmt":"2012-06-01T17:06:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.rodolfogeiser.com.br\/site\/?p=395"},"modified":"2012-06-01T17:06:46","modified_gmt":"2012-06-01T17:06:46","slug":"pro-varzeas-ou-contra-varzeas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/2012\/06\/01\/pro-varzeas-ou-contra-varzeas\/","title":{"rendered":"Pr\u00f3-v\u00e1rzeas ou contra-v\u00e1rzeas?"},"content":{"rendered":"<p>\t\t\t\tOs primitivos ca\u00e7adores que adentravam pelos brejos e circunvizinhan\u00e7as de campos silvestres, enfrentando o risco de cobras venenosas e outros bichos, conhecem bem as terras \u00famidas. S\u00e3o nas terras \u00famidas, ribeirinhas, concentradas em v\u00e1rzeas, que a fauna do ar, da terra e da \u00e1gua se encontram.<\/p>\n<p>O cientista-ec\u00f3logo e todos os defensores da Natureza sabem que as terras \u00famidas possuem uma grande diversidade biol\u00f3gica &#8211; diversidade esta indicando que o n\u00famero de esp\u00e9cies vegetais e animais \u00e9 extraordinariamente grande. No Brasil, essas terras \u00famidas &#8211; ou ecologicamente consagradas pelo termo <em>V\u00e1rzeas<\/em> \u2013 s\u00e3o todos os p\u00e2ntanos, alagados, brejos, mangues.<\/p>\n<p>Todo o mundo cobi\u00e7a a terra \u00famida. Tanto o ca\u00e7ador para a ca\u00e7a quanto\u00a0 o engenheiro-hidr\u00e1ulico contratado pelas pol\u00edticas p\u00fablicas para o c\u00e1lculo de represas visando armazenar \u00e1gua para gera\u00e7\u00e3o de eletricidade e para o abastecimento urbano e rural. Mas ningu\u00e9m como o agricultor cobi\u00e7a tanto a terra \u00famida &#8211; as V\u00e1rzeas &#8211; pois sabem que s\u00e3o extremamente f\u00e9rteis e ricas em mat\u00e9ria org\u00e2nica &#8211; e \u00f3bvio, util\u00edssimas para a pr\u00e1tica da agricultura. N\u00e3o obstante, nas grandes cidades, o \u201cpanorama da cobi\u00e7a\u201d \u00e9 outro: as terras \u00famidas s\u00e3o inicialmente deixadas de lado, e consequentemente invadidas e ocupadas para a urbaniza\u00e7\u00e3o. Diante de tanta gente cobi\u00e7ando as terras \u00famidas, o que faz \u2013 ou pode fazer &#8211; o aut\u00eantico defensor da Natureza? Continuar sendo um fr\u00e1gil David diante de Golias? E ainda mais: um sincero David antecipadamente derrotado pelo malicioso Golias?<\/p>\n<p>Muito raramente, a M\u00e3e Natureza d\u00e1 o troco. Lembremos. Lembremos que as civiliza\u00e7\u00f5es da Ass\u00edria e da Babil\u00f4nia desenvolveram-se at\u00e9 os mais elevados n\u00edveis para a \u00e9poca atrav\u00e9s a explora\u00e7\u00e3o agr\u00edcola das V\u00e1rzeas dos rios Tigre e Eufrates. E foram decaindo rapidamente em decorr\u00eancia do mau e exagerado uso de tas recursos providos pela M\u00e3e Natureza. Nos dias atuais, tamanho \u00e9 o desenvolvimento da tecnologia que os \u201ccobi\u00e7adores\u201d est\u00e3o mais tranq\u00fcilos em sua voracidade sobre as terras \u00famidas&#8230;Como se o conhecimento humano fosse superior \u00e0s for\u00e7as da Natureza&#8230; Como se n\u00e3o houvesse mais risco algum da M\u00e3e Natureza dar sua resposta ao Homem&#8230;E n\u00f3s \u2013 pequenos Davids? &#8211; tendo de enfrentar os mais recentes recursos dessa nossa pseudo-civiliza\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Refiro-me ao sofisticados recursos nas \u00e1reas da informa\u00e7\u00e3o e da manipula\u00e7\u00e3o da imagem. Sabe-se hoje que a imagem transformou-se em recurso t\u00e3o manipulador cujo poder pode ser bem equiparado\u00a0 ao de um sistema ditatorial.\u00a0 Relembro aqui um \u201cexemplo hist\u00f3rico\u201d do mau uso da imagem contra as terras \u00famidas. Aconteceu em meados da d\u00e9cada de 1980, com o autor destas linhas, e no Brasil&#8230;Permitam-me entrar em alguns detalhes vivenciais:<\/p>\n<p>Acabara de ser criado no Minist\u00e9rio da Agricultura o <em>\u201cPrograma Pr\u00f3-V\u00e1rzeas&#8221;<\/em>, cujo t\u00edtulo pode ser facilmente interpretado por qualquer aprendiz da l\u00edngua portuguesa, como o de um programa oficial de prote\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o das V\u00e1rzeas. Ledo engano, caro leitor! O Programa PR\u00d3-V\u00e1rzeas tinha em vista justamente o oposto, ou seja, financiar a drenagem dessas mesmas terras para uso agr\u00edcola. N\u00e3o era PR\u00d3- V\u00e1rzeas mas CONTRA-V\u00e1rzeas! Transformar a id\u00e9ia do <em>contra<\/em> em <em>pr\u00f3<\/em> \u00e9 uma das sutilezas da manipula\u00e7\u00e3o da imagem &#8211; infelizmente caracter\u00edstica do nosso tempo no cen\u00e1rio ecol\u00f3gico-s\u00f3cio-econ\u00f4mico-cultural do Brasil. N\u00e3o se pode saber, nem denunciar, <em>quem<\/em> bolou esta jogada anti-ecol\u00f3gica.\u00a0 Subrepticiamente, tudo isso pode ocorrer nos meandros burocr\u00e1ticos entre o Legislativo, o Executivo e o Judici\u00e1rio nacionais. O fato \u00e9 que foi uma manipula\u00e7\u00e3o de Golias contra David, um jogo de imagens verbais absolutamente irrespons\u00e1vel para confundir e igualar preserva\u00e7\u00e3o com destrui\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Na seq\u00fc\u00eancia de tais detalhes vivenciais, veio ao Brasil, em setembro de 1985, o Presidente da \u201cUni\u00e3o Internacional para a Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza\u201d, com sede na Su\u00ed\u00e7a, para lan\u00e7ar o \u201cPrograma de Prote\u00e7\u00e3o \u00e0s Terras \u00damidas&#8221;. O lan\u00e7amento ocorrera em Bras\u00edlia, no Pal\u00e1cio do Planalto, estando presentes o presidente da Rep\u00fablica, Jos\u00e9 Sarney e o Ministro da Agricultura, Pedro Simon. Como fundador e presidente da Sociedade Brasileira de Paisagismo, recebi um convite oficial|. Com uma hora de anteced\u00eancia, frente\u00a0 ao portal de vidro do\u00a0 Pal\u00e1cio do Planalto, adentramos\u00a0 uma ampla sala no aguardo do Senhor Presidente. Havia uma esp\u00e9cie de tablado em n\u00edvel superior onde ficariam as autoridades. E l\u00e1 j\u00e1 estava o Senhor Presidente da Uni\u00e3o Internacional. Finalmente, abre-se uma portinha, entra o chefe do cerimonial com um grande bast\u00e3o, bate tr\u00eas vezes no ch\u00e3o, toc, toc, toc, e anuncia: \u201cSua Excel\u00eancia o Presidente da Rep\u00fablica Federativa do Brasil, Senhor Jos\u00e9 Sarney!\u201d Passados 4 a 5 segundos entra o Presidente acompanhado do Ministro Pedro Simon.<\/p>\n<p>A\u00ed vieram os discursos. Toda aquela pompa e circunst\u00e2ncia me lembravam os filmes da Idade M\u00e9dia :<em>\u00a0 \u201cDamas e Cavalheiros, todos em p\u00e9,\u00a0 vai entrar sua Majestade, o Rei!\u201d\u00a0<\/em> No breve discurso do presidente, Sarney se referiu a uma regi\u00e3o do Maranh\u00e3o, que era de alagados, ou seja, de terras \u00famidas. Pensei com meus bot\u00f5es: \u201c <em>a conclus\u00e3o dele ser\u00e1 esta: Nasci em terras \u00famidas e sou sens\u00edvel ao problema.\u201d<\/em> Ledo engano, caro leitor.<\/p>\n<p>Muito mais rapidamente que eu poderia imaginar, formou-se uma imensa fila da qual eu era um dos \u00faltimos. E toca a esperar&#8230;e eu a pensar: <em>\u201c O que vou dizer para eles?<\/em>\u00a0 No empurra-empurra, diante de ambos, e procurando economizar tempo, disse:<\/p>\n<p>\u201cSenhor Presidente, agora necessitamos acabar com o Pr\u00f3-v\u00e1rzeas&#8230;(pausa) Ou, pelo menos, cham\u00e1- lo de CONTRA- V\u00e1rzeas !\u201d<\/p>\n<p>Ambos me encararam estupefactos. E me apertaram as m\u00e3os solenemente. Tudo muito politicamente correto. O subtexto mental de ambos s\u00f3 poderia ser este: \u201c<em>Estamos diante de um penetra, de um inimigo da natureza. Como \u00e9 que ele quer acabar com o PR\u00d3-V\u00e1rzeas?<\/em>\u201d<\/p>\n<p>Meses mais tarde, procurei o pessoal do Suplemento Agr\u00edcola do <em>Estad\u00e3o<\/em>, para sensibiliz\u00e1-los sobre a quest\u00e3o do PRO- V\u00e1rzeas, digo CONTRA- V\u00e1rzeas. Disso<\/p>\n<p>resultou uma entrevista\u00a0 no citado Suplemento em 9 de Outubro de 1985\u00a0 ( vide a \u00edntegra neste site.)<\/p>\n<p>Conclu\u00edmos o presente texto, citando Vil\u00e9m Flusser, autor do livro P\u00f3s-Hist\u00f3ria\u201d, que nos inspirou e fundamentou sobre a quest\u00e3o do mau uso da Imagem. Esse mau uso da Imagem \u00e9 de suma import\u00e2ncia, pois vem se generalizando, tornando o \u201cn\u00e3o\u2019 em \u201csim\u201d , e vice-versa, sem as pessoas perceberem, tal o impacto da Imagem na \u201cP\u00f3s-Hist\u00f3ria\u201d.A Imagem predominando sobre o texto torna o texto prescind\u00edvel, se n\u00e3o totalmente dispensado, prevalecendo a &#8220;engana\u00e7\u00e3o&#8221; como verdade absoluta.<\/p>\n<p>E a \u00faltima palavra \u00e9 de Flusser:<\/p>\n<p>\u201cViveremos, doravante, n\u00e3o entre conceitos, mas entre <em>imagens<\/em> de conceitos. Tal estar-no-mundo pode ser chamado &#8220;estrutural&#8221;, porque viveremos entre estruturas. Ou &#8220;p\u00f3s hist\u00f3rico&#8221;, porque viveremos entre processos <em>imaginativamente<\/em> sincronizados.\u201d<\/p>\n<p>E como prova da preocupante atualidade de tal tema, &#8211; o mau uso da Imagem,\u00a0 ou melhor dizendo, <em>texto-imagem<\/em> &#8211;\u00a0 transcrevemos um texto publicado pela revista VEJA de 09\/05\/2012,\u00a0 em sua se\u00e7\u00e3o <em>\u201cBlogosfera\u201d<\/em> :<\/p>\n<p><em>Como ser desonesto com as palavras<\/em><\/p>\n<p><em>H\u00e1 muitas formas de ser desonesto com as palavras. Uma parte substancial delas envolve a tentativa de engambelar ou intimidar o interlocutor dando-lhe a impress\u00e3o de que n\u00e3o alcan\u00e7a aquilo que dizemos quando, na verdade, aquilo que n\u00e3o dizemos \u00e9 tudo o que queremos dizer. Trata-se de um truque especialmente caro \u00e0 alma brasileira, e existem tr\u00eas caminhos b\u00e1sicos para logr\u00e1-lo: por meio do vocabul\u00e1rio preciosista; do racioc\u00ednio tortuoso; ou de ambos.<\/em><\/p>\n<p>(Veja de 09\/05\/12)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.rodolfogeiser.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/anexo-pr\u00f3-v\u00e1rzeas-ou-contra-v\u00e1rzeas.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"pic aligncenter\" title=\"anexo pr\u00f3-v\u00e1rzeas ou contra-v\u00e1rzeas\" src=\"http:\/\/www.rodolfogeiser.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/anexo-pr\u00f3-v\u00e1rzeas-ou-contra-v\u00e1rzeas-251x300.jpg\" alt=\"\" width=\"251\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">entrevista publicada no Estad\u00e3o em 09\/10\/1985 (clique na imagem para aumentar).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>5 de Junho de 2012.<\/p>\n<p>Rodolfo Geiser<\/p>\n<p>Editoria de texto: Maria Lilia Le\u00e3o\t\t<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os primitivos ca\u00e7adores que adentravam pelos brejos e circunvizinhan\u00e7as de campos silvestres, enfrentando o risco de cobras venenosas e outros bichos, conhecem bem as terras \u00famidas. 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