{"id":518,"date":"2014-08-30T19:58:19","date_gmt":"2014-08-30T19:58:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.rodolfogeiser.com.br\/site\/?p=518"},"modified":"2019-05-23T14:24:48","modified_gmt":"2019-05-23T14:24:48","slug":"mira_schendel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/2014\/08\/30\/mira_schendel\/","title":{"rendered":"MIRA SCHENDEL: a amiga e uma vis\u00e3o de sua obra"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>MIRA SCHENDEL: a amiga e uma vis\u00e3o de sua obra <span style=\"color: #ff0000;\">(minuta)<\/span><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\"><em>A mem\u00f3ria insiste em guardar, viva, a imagem de uma amiga, de uma arte, de um mist\u00e9rio&#8230; Entendo que \u00e9 preciso deixar de lado temor ou pudor, na obriga\u00e7\u00e3o de dar meu testemunho<\/em>.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong style=\"color: #ff6600;\">Mira: a amiga, a obra, o mist\u00e9rio<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Mira foi a pessoa mais fascinante que conheci em minha vida. E o fasc\u00ednio veio de sua obra, envolta, para mim, em um mist\u00e9rio abissal. Um mist\u00e9rio que agiu sobre meu esp\u00edrito (age ainda?) de modo a me cativar, como se me tornasse um escravo dele e da pr\u00f3pria obra de Mira.&nbsp; Talvez por isso eu tenha sido brindado, por longos anos, com a gra\u00e7a de sua amizade. Desde algo em torno de meados da d\u00e9cada de 1960 \u2013 n\u00e3o sei precisar com exatid\u00e3o \u2013 at\u00e9 sua morte, em 1988.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Fui irresistivelmente atra\u00eddo por sua obra. Por uma esp\u00e9cie de mist\u00e9rio transcendental, de ess\u00eancia, que dela parecia emanar. Aquelas letras dispersas, invertidas, tra\u00e7os, \u00e2ngulos e curvas, o papel transparente e o acr\u00edlico que possibilitavam uma dupla vis\u00e3o da mesma obra&#8230; Tudo muito contido, reservado, em amplas \u00e1reas abertas, espa\u00e7o aberto \u00e0 nossa pr\u00f3pria imagina\u00e7\u00e3o&#8230; De tal forma me atra\u00edam aquelas obras que me via sendo sugado por elas e nelas integrado. Como se deixasse de ser eu. Ou como se eu, incorporado na obra, fosse mais importante que eu pr\u00f3prio.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #933f0f;\"><em><strong style=\"color: #933f0f;\">Qual era seu mist\u00e9rio?<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">N\u00e3o recordo quem conheci primeiro, se Mira em pessoa ou sua obra. Lembro-me perfeitamente de que li, no dia em que foi publicado no Suplemento Liter\u00e1rio do Estad\u00e3o, o artigo de Vil\u00e9m Flusser sobre a artista e sua obra. Isso, em 1967. Durante muito tempo aquele artigo me norteou para pensar a obra de Mira Schendel. Eu gostaria de ter a bagagem de Flusser para saber escrever t\u00e3o claramente, t\u00e3o bem e at\u00e9 de forma t\u00e3o po\u00e9tica quanto o fazia, naquele artigo&#8230; Entretanto, com o passar dos anos, ele perdeu para mim um pouco de sua for\u00e7a.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Flusser dizia que Mira se preocupava com o in\u00edcio da Linguagem, n\u00e3o em tempos pr\u00e9 hist\u00f3ricos, mas sim no modo como ela atua no presente sobre o Homem. Assim, dizia ele que os desenhos de Mira Schendel poderiam tentar refletir os prim\u00f3rdios da Linguagem no primeiro balbuciar de cada ser humano. Sob esse ponto de vista, os desenhos seriam <em>pre- textos<\/em>. (Mesmo que esse primeiro balbuciar pudesse ter algo de divino&#8230;).<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Hoje, n\u00e3o consigo mais assimilar essa express\u00e3o como reflexo da obra de Mira. Se fosse usar a terminologia de Flusser, talvez eu preferisse&#8230; <em>p\u00f3s textos<\/em>. Entretanto, estas s\u00e3o palavras muito pobres para refletir a magnitude da obra de Mira.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><strong style=\"color: #ff6600;\"><em>Amizade com Mira<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Foi uma amizade sem grandes lances intelectuais. Sendo Knut, seu marido, vegetariano, eu a levava aos restaurantes japoneses para comer sushi&#8230;&nbsp; Um dia, curiosa, pediu-me para lev\u00e1-la ao cinema, assistir o primeiro filme do Agente James Bond, o 007, que fazia amplo sucesso naquela \u00e9poca. Levei-a tamb\u00e9m para visitar outros artistas pl\u00e1sticos com quem se dava. Uma ou duas vezes, Knut viajando, receosa, pediu-me que eu dormisse em sua casa. E visitei-a quando, por algumas semanas, ficou morando num <em>trailer<\/em> l\u00e1 pela regi\u00e3o de S\u00e3o Roque. Enfim, essas coisas corriqueiras&#8230;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><strong style=\"color: #ff6600;\"><em>Mira e Knut<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">De in\u00edcio eu n\u00e3o sabia bem como me comportar diante de seu marido e ficava sempre muito constrangido. No dia do 007, fui busc\u00e1-la em casa e quem abriu a porta foi Knut. Fiquei encabulado e n\u00e3o sabia o que dizer ou fazer, mesmo considerando que meu relacionamento com Mira n\u00e3o envolvia sen\u00e3o a mais pura amizade.&nbsp; Talvez o que me constrangesse fosse&nbsp; apenas a estranheza de uma rela\u00e7\u00e3o assim\u00e9trica, com algo de benevol\u00eancia por parte dela, e de fasc\u00ednio de minha parte.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Depois, fiz amizade com Knut e tornei-me cliente ass\u00edduo de sua Livraria Canuto. Um dia perguntei-lhe se gostava do trabalho de Mira, ao que ele me respondeu:&nbsp; \u2013 Claro! Ela sempre me consulta sobre cada obra sua&#8230; Depois, percebendo que indiretamente se colocava como coautor, completou:&nbsp; \u2013&#8230; logicamente,&nbsp; ela nunca segue meus coment\u00e1rios&#8230;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><strong style=\"color: #ff6600;\"><em>Mira e alguns amigos<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Nos anos 1960, Mira apresentou-me a Vil\u00e9m Flusser, numa visita \u00e0s \u201ctardes filos\u00f3ficas\u201d que ele promovia em sua resid\u00eancia, reunindo um pequeno grupo de intelectuais e outros tantos jovens sedentos por um conhecimento que n\u00e3o respeitava fronteiras institu\u00eddas. Flusser tamb\u00e9m me brindou com sua amizade. Guardo ainda algumas cartas suas sobre ecologia e paisagem cultural. Certa vez, reunimo-nos em minha casa para conversar sobre o significado das crateras deixadas pela minera\u00e7\u00e3o em Itabira, MG, e que motivaram o Poeta a abandonar sua cidade natal. Uma das cavas mede cerca de 1.200 x 2.500 metros de extens\u00e3o e uns bons 400 metros&nbsp; de profundidade&#8230; Est\u00e1vamos: Mira, Flusser e sua esposa, Milton Vargas, Maria Lilia Le\u00e3o, Jos\u00e9 Resende e Valdemar, um engenheiro cujo sobrenome me escapa \u00e0 mem\u00f3ria. A natureza e sua transforma\u00e7\u00e3o, o trabalho humano, a t\u00e9cnica, a apropria\u00e7\u00e3o e a devasta\u00e7\u00e3o do progresso&#8230;&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Atrav\u00e9s de Mira, conheci Jos\u00e9 Resende e seu amplo ateli\u00ea na Rua Doutor Esdras, Am\u00e9lia Toledo, creio que na Rua Groel\u00e2ndia. L\u00e1 fomos tamb\u00e9m com Sonia Laboriau, de Belo Horizonte. Mira aos poucos me abria janelas para perscrutar algo de seu mundo e das ideias que a rodeavam. De outro ramo de relacionamento comum a ambos, havia tamb\u00e9m Edmar de Almeida, multifacetado mineiro de Uberl\u00e2ndia, que fez uma exposi\u00e7\u00e3o no MASP a convite de Lina Bo Bardi.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Mira era muito amiga de Monica Filgueiras, marchand e propriet\u00e1ria de uma Galeria de Arte que leva seu nome e que inclusive era uma das respons\u00e1veis pela promo\u00e7\u00e3o de sua obra. Um dia, vendo-me solit\u00e1rio, Mira me disse: \u2013 Rodolfo, por que voc\u00ea n\u00e3o sai com a M\u00f4nica? Era uma mo\u00e7a de um corpo avantajado e de um rosto bel\u00edssimo, de fei\u00e7\u00f5es delicadas. Sem duvida, uma tenta\u00e7\u00e3o. Alguns dias depois jant\u00e1vamos os tr\u00eas juntos.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Dessa maneira, Mira se colocava como a irm\u00e3 mais velha e ilustre.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><strong style=\"color: #ff6600;\"><em>Conversas com Mira sobre sua obra<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Pouco me lembro de conversas com Mira sobre sua obra.&nbsp; Uma vez perguntei-lhe, pensando nos desenhos dos caquis, qual era seu crit\u00e9rio na distribui\u00e7\u00e3o das formas no papel de desenho. N\u00e3o me lembro de sua resposta exata, mas restou-me a ideia de que sua distribui\u00e7\u00e3o era resultante de uma preocupa\u00e7\u00e3o de arranjo do espa\u00e7o. Algo mais ligado \u00e0 Arquitetura, ou antes, \u00e0 arquitetura interna da pr\u00f3pria obra, por onde se constru\u00eda seu mist\u00e9rio. Assim, voltando a Flusser, n\u00e3o se trataria propriamente de \u201cregi\u00f5es de papel vazio e de sil\u00eancio prenhe de futura l\u00edngua\u201d, mas, antes, prenhes da \u00e2nsia por uma rela\u00e7\u00e3o mais profunda e indiz\u00edvel, vinculada com o sagrado, se me fosse permitido dizer assim&#8230;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Em outra oportunidade, depois de voltar de uma viagem \u00e0 It\u00e1lia e outras partes da Europa, Mira mostrou-me algumas fotos de paisagens que por l\u00e1 havia tirado, e tivemos uma longa conversa sobre elas.&nbsp; Todas as fotos no sentido vertical, predominando a altura sobre a largura da imagem. Como, ali\u00e1s, ocorre na maioria de seus desenhos. Uma dessas fotos, muito interessante, captara, visto de longe, um trem, cuja horizontalidade rivalizava com o horizonte na paisagem. Assim, na \u00e1rea da foto vertical, predominava a parte do terreno em primeiro plano e, em \u00faltimo, o c\u00e9u.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\"> \u00c9 o mesmo sistema de percep\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o de um desenho que Mira fez para mim, em raz\u00e3o do meu trabalho como paisagista e ec\u00f3logo. Tal como com o trem na metade inferior da foto, nesse desenho h\u00e1 alguns poucos tra\u00e7os seguindo o impulso da linha horizontal, que delimitam, para&nbsp; o alto, um azul de c\u00e9u escuro e, para baixo, uma mancha de cor bronze, representando um terreno devastado sem vegeta\u00e7\u00e3o. Abaixo, no centro da parte em bronze (ou mais apropriadamente, em cor de terra bruta prestes a ser cultivada), um bem pequeno ramo com seis folhinhas na cor verde. Assim, a maneira de encarar c\u00e9u e terra nos seus desenhos sugere tamb\u00e9m uma maneira de ver sua obra, justificada por esse desenho, que conservo com carinho em meu escrit\u00f3rio.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"335\" height=\"637\" src=\"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/ms01.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-712\" srcset=\"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/ms01.png 335w, https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/ms01-158x300.png 158w, https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/ms01-300x570.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 335px) 100vw, 335px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.rodolfogeiser.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/foto1.png\"><br><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Em outra ocasi\u00e3o, do alto da suposta compet\u00eancia do meu conhecimento t\u00e9cnico, fiz alguns coment\u00e1rios cr\u00edticos sobre a s\u00e9rie <em>Paisagens de Itatiaia<\/em> e Mira n\u00e3o gostou. Calou-se; n\u00e3o disse nada. Na vez seguinte em que nos encontramos, Mira puxou um envelope e dele tirou uma s\u00e9rie de fotos, todas tamb\u00e9m no sentido vertical, mostrando paisagens de Itatiaia, seus morros e o predom\u00ednio da neblina no entorno. Mira focara um, dois, tr\u00eas morros, cuidadosamente organizados no formato da foto, e simplesmente me disse:&nbsp; \u2013 Veja! Eram seus desenhos <em>in vivo<\/em>&#8230; Entendo que para conhecer o trabalho de Mira, pode ser muito produtivo analisar as fotos que tirou. Ela utilizava uma m\u00e1quina bem simples, dessas populares, sem recurso adicional algum.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Sua obra certamente pode ser comparada com outras que guardam um esp\u00edrito minimalista. Tanto que ela cuidava que sua assinatura n\u00e3o desorganizasse ou competisse com o restrito conte\u00fado em tra\u00e7os e formas de cada trabalho. Para assinar os desenhos, ela utilizava um estilete met\u00e1lico pontiagudo ou um l\u00e1pis de grafite duro tipo \u201c2H\u201d, bem apontado. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil achar sua assinatura no desenho.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Um dia Mira mostrou-me uma camiseta bordada. Dessas comuns, branca, com duas ou tr\u00eas faixas horizontais, constru\u00eddas por pequenas formas retangulares, quase quadradas, medindo cerca de 1 x 1,2 cm cada ret\u00e2ngulo. Todas em sequ\u00eancia. Cada ret\u00e2ngulo era de um desenho singelo, colorido, muito bonito. Disse-me: \u2013 Rodolfo, o que acha dos desenhos desse bordado? Foram feitos pela <em>Mucci&#8230;<\/em> (sua filha Ada \u2013 seria assim que se escreve?). N\u00e3o me lembro do que eu disse, mas sei que era um conjunto discreto, muito bonito. Dava vontade de vestir a camiseta&#8230; Mira estava muito orgulhosa, constatando que sua filha incorporara, ao menos em parte, algo do modo de pensar de sua obra.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><strong style=\"color: #ff6600;\"><em>Mira trabalhando<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Interessante e talvez muito importante era o tipo de concentra\u00e7\u00e3o e invoca\u00e7\u00e3o de energias para a a\u00e7\u00e3o que Mira punha na cria\u00e7\u00e3o da obra. Tinha a impress\u00e3o de que ela consumia at\u00e9 a \u00faltima gota de sua energia ao realizar cada tra\u00e7o. Ela se exauria. Pude v\u00ea-la estatelada ao ch\u00e3o, tal como um boxeador nocauteado, sem for\u00e7as para levantar-se, ap\u00f3s fazer um \u00fanico e decisivo tra\u00e7o em uma tela: ela jogara toda sua energia naquele gesto. Nesse dia n\u00e3o sa\u00edmos para comer sushi. Ela n\u00e3o conseguia levantar-se do ch\u00e3o. Para onde se dirigia tal esfor\u00e7o inavali\u00e1vel, que parecia transpor e transcender sua obra? Mais tarde vim a compreender que talvez ele buscasse se dirigir (desesperadamente) ao intang\u00edvel de um Outro absoluto, esfor\u00e7o quase v\u00e3o para uma resposta que n\u00e3o viria&#8230;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Mira vivia para criar sua obra: estudar, refletir, incans\u00e1vel e ininterruptamente, tecer la\u00e7os entre amigos, doar at\u00e9 seus trabalhos para os mais \u00edntimos. Uma vida de monja, que parecia constituir a base para uma liberta\u00e7\u00e3o de v\u00ednculos com bens materiais. Por isso, al\u00e9m da obra em si, seu comportamento tamb\u00e9m me intrigava.&nbsp; Tentava em v\u00e3o resolver o mist\u00e9rio.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><strong style=\"color: #ff6600;\"><em>Refer\u00eancias intelectuais e algumas pistas: Mira e seus mentores?<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Com Mira, conversava mais sobre filosofia. Ou seja, era ela quem falava. Mira foi uma grande intelectual, sem d\u00favida. Uma pessoa obcecada por ideias. Sempre que nos encontr\u00e1vamos, metralhava-me com suas reflex\u00f5es sobre Walter Benjamin, Martin Buber e Konrad Lorenz. N\u00e3o que eu possa hoje, com seguran\u00e7a, repetir alguma coisa dessas conversas.&nbsp; Mas posso assegurar que esses tr\u00eas nomes eram uma constante. Diante de mim, para Mira, outros pensadores vinham bem depois, como se n\u00e3o houvesse um quarto, quinto ou d\u00e9cimo em import\u00e2ncia que se seguisse. Tamb\u00e9m n\u00e3o posso dizer que isso se repetia com os outros amigos seus ou se era um menu restrito ao amigo Rodolfo, paisagista e ec\u00f3logo, para o qual Mira incluiria, como prova de condescend\u00eancia,&nbsp; algo do universo&nbsp; biol\u00f3gico, na figura de Konrad Lorenz.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">E Mira n\u00e3o parava de falar, restando pouca oportunidade de express\u00e3o ao interlocutor, em especial, como \u00e9 \u00f3bvio, no meu caso. Era quase um mon\u00f3logo. E eu, mais novo, vindo de uma escola do interior do Estado, ficava entre admirado e extasiado diante de Mira&#8230;&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><strong style=\"color: #ff6600;\"><em>Um denominador comum <\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Com o passar dos anos, em especial ap\u00f3s a morte de Mira, transcorrido um quarto de s\u00e9culo, fiquei ruminando o que poderia haver de comum entre aquelas tr\u00eas personalidades de reconhecimento mundial que sempre retornavam em nossas conversas. O que poderiam refletir na obra de Mira.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Konrad Lorenz \u00e9 o m\u00e9dico austr\u00edaco famoso por suas pesquisas sobre&nbsp; comportamento e instinto dos animais, um dos criadores da Etologia, e que depois se aventurou a estender sua reflex\u00e3o aos padr\u00f5es de comportamento humano, o peso que sobre ele exercem a domestica\u00e7\u00e3o e a civiliza\u00e7\u00e3o. Benjamin \u00e9 o fil\u00f3sofo da arte e da est\u00e9tica, da teoria da cr\u00edtica da obra de arte, indissoci\u00e1vel de sua preocupa\u00e7\u00e3o com as rela\u00e7\u00f5es humanas na vida social. O fil\u00f3sofo que, de um ponto de vista diametralmente oposto ao de Lorenz, no entanto conclui, como ele, que a hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9, antes de tudo, n\u00e3o a narrativa de uma cadeia de acontecimentos, sempre agenciada pelos vencedores, mas a express\u00e3o de \u201cuma cat\u00e1strofe \u00fanica, que acumula incansavelmente ru\u00edna sobre ru\u00edna e as dispersa a nossos p\u00e9s\u201d, sob o efeito de \u201cuma tempestade que chamamos de progresso\u201d, como diria em sua an\u00e1lise admir\u00e1vel&nbsp; do <em>Angelus Novus<\/em> de Paul Klee.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Comportamento e instinto, vida social, cultura e hist\u00f3ria, conquista ou perda de sentido para a vida humana, tudo isso nos remete a uma quest\u00e3o central, que \u00e9 a do universo da comunica\u00e7\u00e3o. Ao lado dos outros dois pensadores, Buber figura como o mestre do di\u00e1logo, comunica\u00e7\u00e3o entre os homens, e autor de um texto consagrado, <em>Eu e Tu<\/em>, no qual sugere (quase diria, demonstra) uma comunica\u00e7\u00e3o espiritual, que redundaria numa permanente \u00e2nsia humana em dire\u00e7\u00e3o a um Tu absoluto (chamemos o que quisermos esse absoluto).<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Todos eles s\u00e3o parte de um mesmo longo per\u00edodo de tens\u00e3o e intensa reflex\u00e3o, do in\u00edcio do s\u00e9culo passado \u00e0 II Guerra Mundial, numa encruzilhada hist\u00f3rica que p\u00f5e em jogo o destino da humanidade em seu conjunto, entre perspectivas antag\u00f4nicas que, no entanto, se cruzam e em v\u00e1rios momentos convergem de um modo \u00e0 primeira vista paradoxal. Socialismo, comunismo, sionismo, nacional socialismo, nazismo. A cren\u00e7a no poder transformador revolucion\u00e1rio da a\u00e7\u00e3o humana e a certeza do poder, sombrio ou liberador, de um inconsciente que escapa \u00e0 racionalidade de todo prop\u00f3sito. Cubismo, Bauhaus, Arte Abstrata, Expressionismo, Surrealismo. No interior desse tempo, um c\u00edrculo judaico de not\u00e1veis pensadores. Benjamin foi por toda vida amigo de Gershom Scholem, mantendo com ele s\u00f3lida correspond\u00eancia. Scholem, o estudioso da Kabbala e o grande pensador da m\u00edstica judaica. E que manteve uma acirrada pol\u00eamica com Martin Buber, outro grande continuador da tradi\u00e7\u00e3o m\u00edstica judaica, acusado de \u201cpersonalizar\u201d conceitos abstratos da Kabbala, embora assim buscasse devolver a tradi\u00e7\u00e3o ao tempo presente e de uma perspectiva existencial e humanista ampla.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Tudo isso deveria estar, de algum modo, interligado com o trabalho de Mira. Assim, fui formando um am\u00e1lgama disso tudo: a obra desses tr\u00eas homens nos remete \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o com a rela\u00e7\u00e3o entre os seres do mundo, a comunica\u00e7\u00e3o dos homens com o mundo, sua rela\u00e7\u00e3o com o instinto, que partilham com os animais, o di\u00e1logo com os outros homens, e a busca espiritual como pano de fundo, nesse universo marcado pelo tema constante da religiosidade e da m\u00edstica judaica. Poder\u00edamos talvez sintetizar isso tudo como \u2018preocupa\u00e7\u00e3o com a Vida\u2019, incluindo a vida natural e a espiritual.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">H\u00e1 algo de ecologia tamb\u00e9m em Buber: a primeira parte de <em>Eu e Tu <\/em>pode ser entendida como uma reflex\u00e3o antropol\u00f3gica e de ecologia humana, no sentido de que Buber descreve como cada ser humano vai formando sua consci\u00eancia em sua rela\u00e7\u00e3o com as coisas do mundo e com os demais seres humanos. E mais: em Walter Benjamin e seu trabalho sobre a cr\u00edtica na arte, a refer\u00eancia \u00e0 religi\u00e3o como fulcro da cultura \u00e9 fundamental, quando observa que o original de uma obra de arte, por sua raridade, transmitiria uma \u2018aura\u2019 religiosa de eternidade, enquanto obras modernas, de um mundo profano, na era de sua reprodutibilidade t\u00e9cnica, como ocorre com as obras cinematogr\u00e1ficas, multiplicadas, seriam desprovidas desta caracter\u00edstica.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Seriam esses os denominadores comuns que teriam resson\u00e2ncia no trabalho de Mira? De comum nos tr\u00eas mestres, preocupa\u00e7\u00f5es ligadas com a Vida, como ela funciona, como os seres se relacionam e se comunicam, suas linguagens e o \u201dsistema\u201d em que est\u00e3o envolvidos \u2013 entendendo-se esta palavra como a exp\u00f5e Ludwig Von Bertalanffy em sua <em>Teoria Geral dos<\/em> <em>Sistemas<\/em> ou, como prefiro cham\u00e1-lo, um <em>eco-socio-psico-sistema<\/em>.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Talvez, dentro do universo de ideias desses tr\u00eas intelectuais, e no contexto de um eco-socio-psico-sistema, Mira expandisse sua reflex\u00e3o voltando-se para as condi\u00e7\u00f5es de Vida necess\u00e1rias ao equil\u00edbrio ps\u00edquico, \u00e0 ampla produ\u00e7\u00e3o intelectual e cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica e \u00e0 \u2018evolu\u00e7\u00e3o\u2019 espiritual de cada ser humano. Ela falava muito na vida agr\u00edcola dos Kibutz em Israel e de uma ideia ent\u00e3o corrente na China, que postulava que cada chin\u00eas vivesse parte de sua vida na zona urbana e parte na zona rural: ambientes diferentes trariam maior riqueza e equil\u00edbrio para todos, em beneficio da sociedade.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><strong style=\"color: #ff6600;\"><em>Buber: Vida espiritual e vida no Esp\u00edrito<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Refletindo sobre meu conv\u00edvio com Mira, seu comportamento, o modo como a vi relacionar-se com seus amigos e, sobretudo, com sua pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, acredito ser necess\u00e1rio dizer, no interesse desta cr\u00f4nica, que dos tr\u00eas intelectuais que sempre voltavam \u00e0s nossas conversas, Buber pode ter sido o que mais teve influ\u00eancia na sua obra. Qual poderia ser sua luz?<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Arriscando-me a resumir de forma simplificadora um pensamento sutil, Martin Buber entende que o Homem, em seu processo evolutivo, cria a si mesmo ao criar a Cultura, representada pelas in\u00fameras facetas com que cada comunidade humana se relaciona com o meio ambiente, produz suas ideias e valores, suas formas de arte e comunica\u00e7\u00e3o, criando um conjunto de informa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o armazenadas e transferidas para as gera\u00e7\u00f5es futuras. Tudo isso visa \u201ca conservar, a facilitar, a equipar a vida humana\u201d, constituindo o que chamou de \u2018vida espiritual\u2019. Em contrapartida, chama de \u2018vida no Esp\u00edrito\u2019 algo que \u00e9 uma decorr\u00eancia da comunica\u00e7\u00e3o humana, da experi\u00eancia do di\u00e1logo entre o Eu e um Tu, criando um v\u00ednculo muito forte entre um e outro, uma \u201cfor\u00e7a-de-rela\u00e7\u00e3o\u201d que, para o homem, \u00e9 o \u201c\u00fanico poder, ali\u00e1s, que lhe permite viver no Esp\u00edrito\u201d (1.). Assim, n\u00e3o se pode confundir \u2018vida espiritual\u2019 com \u2018vida no Esp\u00edrito\u2019, que chegam mesmo a se opor, pois, segundo Buber,<em> \u201c<\/em>esta \u2018vida espiritual\u2019 representa geralmente um obst\u00e1culo para uma vida do homem no Esp\u00edrito\u201d,&nbsp; ao se constituir num v\u00e9u (2.) que interfere nas rela\u00e7\u00f5es entre os homens que age \u201cem detrimento de sua for\u00e7a-de-rela\u00e7\u00e3o\u201d que s\u00f3 a experi\u00eancia verdadeira do di\u00e1logo \u00e9 capaz de criar.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">A \u2018vida espiritual\u2019 relaciona o homem com o mundo e cria um tipo de v\u00ednculo que Buber denomina de Eu-Isso, uma rela\u00e7\u00e3o \u2013 unilateral, mesmo quando estabelecida com outros homens \u2013 que n\u00e3o tem a for\u00e7a da rela\u00e7\u00e3o Eu-Tu, a qual transcende o mundo das coisas, num v\u00ednculo propriamente humano de di\u00e1logo e reciprocidade. A rela\u00e7\u00e3o do homem com o mundo n\u00e3o tem uma import\u00e2ncia significativa na evolu\u00e7\u00e3o de cada um em dire\u00e7\u00e3o a uma aut\u00eantica \u2018vida no Esp\u00edrito\u2019, ainda que forne\u00e7a a sua base, que demandou mil\u00eanios para se processar&#8230; Funcionariam assim como dois tipos ou n\u00edveis distintos de experi\u00eancia da realidade: a da vida cotidiana do mundo, permeada pela \u2018vida espiritual\u2019 da cultura, e a \u2018vida no Esp\u00edrito\u2019, experi\u00eancia humana que transcende a primeira, mesmo que nela tenha suas ra\u00edzes, e aponta para ainda outro tipo de experi\u00eancia, da ordem do sagrado.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><strong style=\"color: #ff6600;\"><em>Buber: tr\u00eas tipos de l\u00edngua<\/em><\/strong><em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Exposta a diferen\u00e7a entre \u2018vida espiritual\u2019 e \u2018vida no Esp\u00edrito\u2019 conforme Buber, e antes ainda de entrar no m\u00e9rito de seu entendimento para a compreens\u00e3o da obra de Mira, tenho de arriscar-me mais uma vez a tentar resumir outro tema de Buber que, para quem se vota ao di\u00e1logo e \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o, \u00e9 essencial. Trata-se de distinguir as diversas l\u00ednguas do homem e as formas de comunica\u00e7\u00e3o que elas viabilizam: a l\u00edngua verbal, a l\u00edngua da arte e a l\u00edngua da a\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">A l\u00edngua verbal \u00e9 a l\u00edngua do di\u00e1logo que expressa a rela\u00e7\u00e3o Eu e Tu. Instrumental para a \u2018vida no Esp\u00edrito\u2019, todavia ela n\u00e3o o alcan\u00e7a por inteiro. Pois o Esp\u00edrito n\u00e3o se encontra no Eu que enuncia a linguagem, mas est\u00e1 <em><span style=\"text-decoration: underline;\">entre<\/span><\/em> o Eu e o Tu. O Esp\u00edrito \u00e9 como se fosse o ar que respiramos. Nas palavras de Buber: \u201cO homem vive no Esp\u00edrito na medida em que pode responder a seu Tu. Ele \u00e9 capaz disso quando entra na rela\u00e7\u00e3o com todo seu ser\u201d.&nbsp; Em <em>A filosofia do di\u00e1logo,<\/em> Buber explica que essa rela\u00e7\u00e3o deve ser direta, franca e espont\u00e2nea, um modo de buscar e experimentar a comunica\u00e7\u00e3o como entrega ao di\u00e1logo que envolve os participantes de forma rec\u00edproca, sem o que a \u2018vida no Esp\u00edrito\u2019 n\u00e3o se processa.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">A l\u00edngua da arte envolve outro tipo de experi\u00eancia de entrega. Nas palavras de Buber:&nbsp; \u201c<em>\u00c9 na contempla\u00e7\u00e3o de um face a face que a forma se revela ao artista. Ele a fixa numa imagem. A imagem n\u00e3o habita o mundo dos deuses, mas neste vasto mundo dos homens<\/em>\u201d. Para que ocorra tal face a face, a rela\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m deve ser direta, franca e espont\u00e2nea. Ainda Buber<em>: \u201cEis a eterna origem da arte: uma forma defronta-se com o homem e anseia tornar-se obra por meio dele<\/em>\u201d. Nesse confronto, o homem deve estar atento, de olhos abertos para o face a face imprevisto. Caso contr\u00e1rio, ele n\u00e3o o capta, a forma se perde, deixou de ser obra.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">A l\u00edngua da a\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 um \u201c<em>dom\u00ednio acima do esp\u00edrito do conhecimento e do esp\u00edrito da arte.(&#8230;) \u00c9 ai que o Tu provindo de um profundo mist\u00e9rio aparece ao homem, lhe fala do seio das trevas e \u00e9 ai que o homem lhe responde com sua vida\u201d.<\/em> \u00c9 a rela\u00e7\u00e3o pura dirigida ao Absoluto, como se estiv\u00e9ssemos desvinculados do mundo das rela\u00e7\u00f5es Eu-Isso, suprema express\u00e3o do encontro Eu-Tu.&nbsp; Trata-se da \u2018vida no Esp\u00edrito\u2019 em si mesma.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><strong style=\"color: #ff6600;\"><em>Minha vis\u00e3o da obra de Mira<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Levando em conta a quest\u00e3o da Linguagem presente na obra de Mira Schendel, com a qual iniciei esta trajet\u00f3ria de lembran\u00e7as a partir de Vil\u00e9m Flusser, concluo que seu trabalho pode ser visto n\u00e3o somente como atendendo \u00e0 l\u00edngua da arte, tal como a define Buber, mas igualmente \u00e0 l\u00edngua verbal, e, sobretudo, \u00e0 l\u00edngua da a\u00e7\u00e3o, aquela dirigida a um Tu absoluto. Os tra\u00e7os de linguagem que a\u00ed se encontram, sendo parte da l\u00edngua da arte, s\u00e3o mais que ela mesma: s\u00e3o a marca da palavra voltada ao absoluto. Por isso Mira se consumia em sua cria\u00e7\u00e3o, exaurida ao fim de cada obra. Da\u00ed seu mist\u00e9rio e seu fasc\u00ednio.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Provavelmente tudo isso est\u00e1 impl\u00edcito no texto de 1967 de Flusser, quando via na obra de Mira a presen\u00e7a da linguagem como <em>pr\u00e9-texto<\/em>, considerando-se seu conhecimento da m\u00edstica judaica que entende a palavra com um dom divino anterior \u00e0 pr\u00f3pria experi\u00eancia da vida humana. Nesse sentido, a linguagem n\u00e3o seria apenas <em>pr\u00e9-texto<\/em>, mas at\u00e9 mesmo <em>pretexto<\/em>. Mas nada disso est\u00e1 explicito, nem as derivadas ficam claras. Por isso, nos termos de Flusser, eu preferiria falar em <em>p\u00f3s-texto<\/em>, n\u00e3o <em>pr\u00e9-texto<\/em>. Esses tra\u00e7os da linguagem na obra de Mira podem,&nbsp; sim, ser um texto, fruto do conhecimento adquirido em toda a vida milenar do ser humano, em sua vida espiritual, mas agregado do esfor\u00e7o sublime de tentar dirigir a palavra ao Absoluto. E como o faria a artista? Convocando todas as suas energias e, imersa na rela\u00e7\u00e3o com algo que anseia por tornar-se imagem, lan\u00e7ar-se \u00e0 prancha de desenho em toda a inteireza de sua espontaneidade e, depois \u2013 somente depois \u2013 ver os resultados dessa a\u00e7\u00e3o: tra\u00e7os, formas esparsas, letras, palavras em diversas l\u00ednguas, com ou sem sentido. Talvez alguma ligeira varia\u00e7\u00e3o em textura e cor. N\u00e3o se trata de linguagem em estado pr\u00e9-verbal, mas sim p\u00f3s-verbal, pois a palavra constitu\u00edda atrav\u00e9s da cultura, tem agora outro destino.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00c9 essa minha vis\u00e3o. Mira pode ou n\u00e3o ter tido consci\u00eancia de uma preocupa\u00e7\u00e3o com esse tipo de rela\u00e7\u00e3o em sua obra. E se a tivesse, tamb\u00e9m n\u00e3o diria, entendo eu, por uma quest\u00e3o de recato. Seria muita pretens\u00e3o afirmar isso. Mas um terceiro, que teve a oportunidade de conviver com ela, apreciar sua obra, e saber de seu v\u00ednculo com Buber, talvez possa e deva faz\u00ea-lo. Eu mesmo, tamb\u00e9m por uma quest\u00e3o de recato, sinto-me constrangido em fazer tal afirma\u00e7\u00e3o, pois implicaria de algum modo ao menos sugerir que eu tenha algum conhecimento desse tipo de rela\u00e7\u00e3o.&nbsp; Entretanto, s\u00f3 me sinto mais confort\u00e1vel em faz\u00ea-lo diante da s\u00e9rie de 16 gravuras de Mira, intitulada <em>Homenagem a Deus \u2013 pai do Ocidente<\/em>, de que tive conhecimento e vi publicada somente em 2010.&nbsp; A s\u00e9rie toda mostra sua preocupa\u00e7\u00e3o com o sagrado, tal como pode ser entendido no mundo ocidental, a ponto de fazer-lhe uma homenagem.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><strong style=\"color: #ff6600;\"><em>Mira: Homenagem a Deus \u2013 pai do Ocidente<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Trata-se de 16 desenhos, todos em folha de papel de formato mais alto que largo, na propor\u00e7\u00e3o de H:L = 2:1, numerados de 1 a 16, utilizando tinta em spray, nanquim e letratone (letraset). Formas em tra\u00e7os grossos, linhas curvas, circulares, em reta e \u00e2ngulos, nas cores preto, vermelho, branco, em tons prateados e dourados. Com o letraset, Mira foi escrevendo palavras e\/ ou pequenas frases:<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">exultem as filhas de Jud\u00e1 por causa dos tevs juizos<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">o esp\u00edrito de deus pairava por sobre as \u00e1guas<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">alegrar-se-\u00e1 o justo, quando vir a vingan\u00e7a<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">banhar\u00e1 os p\u00e9s no sangue do \u00edmpio<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">NEM ME CASTIGUE NO TEU<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">o teu bra\u00e7o \u00e9 armado de poder, forte \u00e9 a tua m\u00e3o &#8230;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">the courage to accept acceptance<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">il dio vivo di abramo &#8230;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">a justi\u00e7a e a paz se beijaram<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">deus &#8230; &#8230; faz desabrochar a flor.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">No 16\u00ba desenho, uma mancha em linha reta, tal como um cond\u00e3o divino, rompe uma forma circular em tom dourado, apontando para uma c\u00e1psula que engloba Vida em forma de flores. No seu entorno, o espa\u00e7o branco e livre que a envolve, a palavra \u201cder geist<em>\u201d<\/em> (em alem\u00e3o, o esp\u00edrito), em letras pequenas. Este certamente \u00e9 o desenho mais revelador em apoio \u00e0s ideias anteriormente aventadas sobre a obra de Mira: o dedo indicando, na c\u00e1psula semicerrada, o mundo do Isso, onde a Vida est\u00e1 confinada (delimitada?), rodeada pelo espa\u00e7o aberto que se infiltra mesmo em seu interior por uma brecha, o mundo do Tu, \u00fanico territ\u00f3rio onde \u00e9 poss\u00edvel \u2018viver no Esp\u00edrito\u2019.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Sob esse ponto de vista, Mira poderia indicar que se sentia presa na c\u00e1psula, invocando todas as suas for\u00e7as para, ao menos, dirigir a palavra \u00c0quele a quem presta homenagem, um Tu absoluto. E que palavra? O que mais restaria, sen\u00e3o s\u00edmbolos, letras esparsas, invertidas, garranchos&#8230; todos entrela\u00e7ados e dispersos no espa\u00e7o?<\/span><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.rodolfogeiser.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/foto2.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"726\" height=\"380\" src=\"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/ms02.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-711\" srcset=\"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/ms02.png 726w, https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/ms02-300x157.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 726px) 100vw, 726px\" \/><\/a><figcaption><em>Os \u00faltimos tr\u00eas desenhos da serie de dezesseis, \u201cHomenagem a deus- pai do ocidente\u201d. Reproduzidos nas p\u00e1ginas 152 e 153 do livro de Luis Perez-Oramas, Le\u00f3n Ferrari and Mira Schendel \u2013 tangled alphabets. New York:The Museum of Modern Art\/ S\u00e3o Paulo: Cosacnaify, 2010.<\/em><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.rodolfogeiser.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/foto3.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"330\" height=\"638\" src=\"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/ms03.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-710\" srcset=\"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/ms03.png 330w, https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/ms03-155x300.png 155w, https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/ms03-300x580.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 330px) 100vw, 330px\" \/><\/a><figcaption><em>O 16\u00ba. desenho: a c\u00e1psula da vida, o espa\u00e7o vazio, a for\u00e7a do divino e a palavra \u2018der geist\u2019(\u2018o esp\u00edrito\u2019}.\ufeff<\/em><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong style=\"color: #ff6600;\"><em>Coment\u00e1rio de Jos\u00e9 Resende<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">A prop\u00f3sito de \u201cHomenagem a Deus Pai do ocidente\u201d, o artista pl\u00e1stico Jos\u00e9 Resende, grande amigo de Mira Schendel, escreveu-me:<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\"><em>\u201cMas, vamos ao seu texto, que al\u00e9m de um relato muito franco e bonito sobre sua amizade com a Mira me parece, sobretudo muito oportuno, por acreditar que as suas conclus\u00f5es sobre o te\u00f3logo Martin Buber podem esclarecer o que eu penso ser uma grande confus\u00e3o<\/em> <em>que est\u00e1 sendo feita sobre o problema da espiritualidade para a Mira.<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\"><em>Acredito que tudo tem origem no texto de Geraldo Souza Dias&nbsp;(&#8220;Mira Schendel do Espiritual \u00e0 Corporeidade&#8221;),&nbsp;editado pela Cosac&amp;Naify, e que se repete no cat\u00e1logo do MOMA, &nbsp;principalmente no que diz respeito \u00e0 s\u00e9rie citada por voc\u00ea &nbsp;&#8220;Homenagem a Deus \u2013 pai do Ocidente<strong>&#8220;. &nbsp;<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\"><em>Discuti muito com a Mira sobre essa s\u00e9rie pois n\u00e3o me conformava com o uso do spray, inclusive com cores ex\u00f3ticas como o&nbsp;rosa \u2018choc\u2019 e o azul turquesa&nbsp;que hoje ( a s\u00e9rie est\u00e1 exposta na Pinacoteca) devido a m\u00e1 qualidade desses pigmentos&nbsp;desapareceram, ainda mais somadas ao vermelho, o ouro e o prata, davam ao conjunto um aspecto kitsch nada habitual nos procedimentos da Mira. Al\u00e9m do que, s\u00e3o trabalhos que se poderia dizer barrocos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua economia de meios e procedimentos. S\u00e3o de uma gestualidade violenta. Ou seja, apesar de aconteceram em papeis cujo formato s\u00e3o os o que ela adotava, de resto s\u00e3o trabalhos excepcionais e \u00fanicos quanto \u00e0 mat\u00e9ria (spray), \u00e0s cores e ao gesto.<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\"><em>Desculpe discordar da sua interpreta\u00e7\u00e3o, mas nas discuss\u00f5es que tivemos o que a Mira dizia \u00e0 respeito dessa s\u00e9rie vai em sentido contr\u00e1rio do que est\u00e1 sendo afirmado a cerca desse trabalho. A atitude segundo ela nesses desenhos era de sarcasmo. Uma oposi\u00e7\u00e3o exatamente \u00e0 figura de Deus Pai, ali\u00e1s extensivas \u00e0 todas as religi\u00f5es monote\u00edstas, que segundo ela fundam no Ocidente a Phalocracia que levou o feminino a uma posi\u00e7\u00e3o de inferioridade e submiss\u00e3o. Esta quest\u00e3o do feminino a preocupava naquele momento e aparece em outras s\u00e9ries, inclusive naquela que ela chamava de &#8220;Bordados &#8221; (concomitante com os trabalho da Mucci que voc\u00ea comenta), relativa tamb\u00e9m segundo ela \u00e0s pr\u00f3prias &#8220;Droguinhas&#8221;, um fazer de Pen\u00e9lope, repetitivo, obsessivo, &nbsp;semelhante ao tecer, pr\u00f3prio do feminino por que mais afeito \u00e0 manualidade do que \u00e0s ideias. Uma forma de ser que ela se preocupava em exercer e afirmar atrav\u00e9s do seu trabalho. \u00c9 dela e textual em entrevista publicada a autocr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o aos Sarrafos de que seriam excessivamente f\u00e1licos.&nbsp;<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\"><em>A vis\u00e3o que voc\u00ea constr\u00f3i do te\u00f3logo Martin Buber, \u00e9 muito oportuna, pois absolutamente coerente com a forma que o problema da espiritualidade poderia se apresentar para ela, inclusive por elidir completamente na exposi\u00e7\u00e3o que voc\u00ea faz do sistema dele a quest\u00e3o da exist\u00eancia ou n\u00e3o de um Deus. A busca dela pelas religi\u00f5es orientais (presente nas s\u00e9ries de Mandalas) a meu ver s\u00f3 confirma essa posi\u00e7\u00e3o anti monote\u00edsta. &nbsp;Ou seja, a meu ver ela estava em guerra contra esse Deus Pai Phalocrata quando se permitiu fazer essa s\u00e9rie. Pe\u00e7o que voc\u00ea reveja os trabalhos admitindo mesmo que por mero exerc\u00edcio essa minha hip\u00f3tese.\u201d&nbsp;<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Jos\u00e9 Resende certamente est\u00e1 certo nesses seus coment\u00e1rios, tanto \u00e9 que a partir dos mesmos, cabem ainda outras reflex\u00f5es.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><strong style=\"color: #ff6600;\"><em>Outras reflex\u00f5es e lembran\u00e7as<\/em><\/strong><strong><span style=\"color: #ff6600;\">&nbsp;<\/span>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">O cat\u00e1logo, na pr\u00e1tica um livro, de uma grande exposi\u00e7\u00e3o da artista na galeria do SESI em 1996, N<em>o vazio do mundo \u2013 Mira Schendel<\/em>, organizado pela curadora Sonia Salzstein, com textos de cr\u00edtica e fragmentos da pr\u00f3pria Mira, apresenta um interessante panorama da sua obra. Embora com focos distintos, esse conjunto de textos me parece confirmar de modo bastante apropriado o que foi aqui anteriormente exposto da minha vis\u00e3o sobre a obra de Mira. O \u201cvazio do&nbsp; mundo\u201d que deu t\u00edtulo \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o remete a espa\u00e7os c\u00f3smicos e desconhecidos, no face a face que lembra a busca do entendimento do porqu\u00ea de nossa exist\u00eancia. Que, para muitos, tem um nome: o divino&#8230;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">De inicio, tive muita dificuldade em ler o livro <em>Eu e Tu<\/em> de Martin Buber. Anos de esfor\u00e7os e tentativas. Come\u00e7ava a ler pela apresenta\u00e7\u00e3o e n\u00e3o conseguia ir em frente. Na d\u00e9cada de 1980, falei disso a Isaias Kirschbaum, m\u00e9dico psiquiatra e psicanalista, e ele, com um leve sorriso, me disse: \u2013 Rodolfo, experimenta assim : \u2018Eu e n\u00e3o-Eu\u2019&#8230;&nbsp; Foi uma ideia boa. Mas desconsiderei tudo o que vinha antes do texto de Buber propriamente, e entrei direto na express\u00e3o do seu pensamento. Na realidade, \u00e9 um texto simples, de palavras de uso comum. Mas cada frase tem de ser lida e vivenciada como experi\u00eancia. Temos de ver se seu conte\u00fado se encaixa ou n\u00e3o em algum entendimento que j\u00e1 se tenha sobre o tema. Se encaixa, podemos ler a frase seguinte. Se n\u00e3o se encaixa, adotei o sistema de interromper a leitura e refletir mais sobre o conte\u00fado da frase. Assim consegui ler o livro nos anos 1990, ap\u00f3s o falecimento de Mira. Agora, em 2014, estou enfrentando uma releitura. A passos lentos, sem nenhuma pressa em chegar ao fim. E concentrado em n\u00e3o deixar nada passar.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Em associa\u00e7\u00e3o ao \u201cn\u00e3o Eu\u201d de Isaias, tamb\u00e9m neste ano de 2014 tomei conhecimento do trabalho de Claudio Miklos, <em>A arte ZEN e o caminho do vazio \u2013 uma investiga\u00e7\u00e3o sobre o conceito budista de N\u00e3o Eu na cria\u00e7\u00e3o da arte<\/em>, apresentado, em 2010, como Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado \u00e0 Universidade Federal Fluminense em Niter\u00f3i, Rio de Janeiro, e que pode ser conferido baixando-se o texto pela internet. Esclare\u00e7o que Zen tamb\u00e9m \u00e9 algo que me envolve de perto: comecei a praticar o zazen em 1962, no Templo Zen da Rua S\u00e3o Joaquim em S\u00e3o Paulo, ainda na antiga casa. Tamb\u00e9m possuo, datado por mim em 1962, o livro de Toshimitsu Hasum,&nbsp; <em>Zen in Japanese art \u2013 A way of Spiritual Experience,<\/em> que pode ser igualmente baixado pela internet. Em base a isso, tomo a liberdade de afirmar que o trabalho de Claudio Miklos concorda perfeitamente com tudo o que aprendi, sei, penso e me emociona no tocante \u00e0 arte zen, \u00e0 medita\u00e7\u00e3o zen e ao pr\u00f3prio ZEN, cuja pr\u00e1tica me ajudou muito na vida.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Claudio Miklos est\u00e1 mais ligado ao zen da Cor\u00e9ia, mas isso n\u00e3o muda nada em rela\u00e7\u00e3o ao ensinamento b\u00e1sico do budismo Zen. Assim, qual n\u00e3o foi minha surpresa ao encontrar no seu texto um subt\u00edtulo, \u201cUm insight zen nas artes contempor\u00e2neas\u201d&nbsp; (p.88), e logo a seguir uma referencia ao trabalho de Mira (p. 111 e 112). Diz o autor que Mira \u201cpossui em sua linguagem art\u00edstica semelhan\u00e7as importantes com as qualidades de despojamento e simplicidade. Em diversas obras de sua autoria podemos perceber uma rela\u00e7\u00e3o adequada entre vazio e sutileza, t\u00e3o praticada nas artes zen\u201d, incluindo, para ilustr\u00e1-lo, dois trabalhos de Mira, n\u00ba 24 e 25. Tamb\u00e9m concordo com essa afirma\u00e7\u00e3o, tanto na sua pertin\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao ZEN, quanto naquilo em que corrobora minha vis\u00e3o do trabalho de Mira comparativamente ao pensamento de Martin Buber.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Vejo nesses trabalhos recentes mais uma confirma\u00e7\u00e3o de que a obra de Mira seria realmente direcionada ao divino. Observe-se que teve o cuidado de intitular sua obra <em>Homenagem a Deus \u2013 pai do Ocidente, <\/em>precisando do que se tratava, uma vez que tinha conhecimento de que a vis\u00e3o do Oriente, em especial aquela do zen, \u00e9 diferente da nossa. Nos textos reunidos por Sonia Salzstein para a exposi\u00e7\u00e3o do SESI, encontra-se uma informa\u00e7\u00e3o interessante (p. 95): consta que, em 1978, Mira fazia medita\u00e7\u00e3o numa comunidade zen em S\u00e3o Paulo, que somente poderia ser a da Rua S\u00e3o Joaquim. N\u00e3o posso afirmar que cheguei a fazer medita\u00e7\u00e3o zen em algum grupo de que Mira participasse. Entretanto, e em resumo, decorridos mais de 30 anos, tomo conhecimento de que palavras chave que para mim definem Mira e sua obra est\u00e3o sendo compreendidas e aceitas, inseridas tamb\u00e9m no contexto do mundo oriental: no \u201cvazio do mundo\u201d, o \u201cn\u00e3o Eu\u201d. O que mostra, no fundo, uma busca universal do ser humano, qualquer que seja a forma em que se expresse, no Ocidente como no Oriente.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Dirigir o trabalho ao divino recorda mais uma vez Buber e uma pequena f\u00e1bula por ele narrada, segundo a qual um poeta e m\u00fasico chin\u00eas queria dirigir sua obra ao povo, sem, contudo, conseguir acess\u00e1-lo. Ent\u00e3o resolveu fazer sua obra voltar-se para o divino e nesse momento o povo come\u00e7ou a ouvi-lo&#8230; Ser\u00e1 que alguma vez ocorreu ou ocorrer\u00e1 o mesmo com a mensagem que a obra de Mira parece nos ter deixado em legado?<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"color: #ff6600;\"><strong><em>O final<\/em><\/strong><\/span><\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Depois que Mira voltou de viagem e come\u00e7ou a tratar de sua doen\u00e7a, telefonei-lhe para marcar uma visita. Atendeu-me ao telefone, dizendo que n\u00e3o queria me ver. O tempo passou e tive de dedicar-me a meu pai, que tamb\u00e9m estava com a mesma doen\u00e7a. Faleceram, primeiro Mira e depois meu pai, com uma diferen\u00e7a de cerca de 30 dias. Assim, depois daquele \u00faltimo e breve contato, n\u00e3o insisti mais em v\u00ea-la pessoalmente. Informaram-me que faleceu l\u00facida e plenamente consciente.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Rodolfo Geiser, 5 de junho de 2014.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">Esse texto foi revisto pela Professora Maria Lucia Montes (antropologia\/USP) e que fez complementa\u00e7\u00f5es onde se requeria maior conte\u00fado filos\u00f3fico.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">-.-.-.-.-<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">(1.) E \u00e9 assim que aflora a pr\u00f3pria alma de cada um dos homens.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #000000;\">(2.) O v\u00e9u age com muito glamour e atua distorcendo a realidade&#8230;<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MIRA SCHENDEL: a amiga e uma vis\u00e3o de sua obra (minuta) A mem\u00f3ria insiste em guardar, viva, a imagem de uma amiga, de uma arte, de um mist\u00e9rio&#8230; Entendo que \u00e9 preciso deixar de lado temor ou pudor, na obriga\u00e7\u00e3o de dar meu testemunho.&nbsp; Mira: a amiga, a obra, o mist\u00e9rio Mira foi a pessoa&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[13,15,22,23,25,28,30,32,41],"class_list":["post-518","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-textos-e-reflexoes","tag-espiritualidade","tag-exposicao","tag-jose-resende","tag-knut","tag-mira-schendel","tag-obra","tag-paisagens-de-itatiaia","tag-pinacoteca","tag-vilem-flusser"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/518","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=518"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/518\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":713,"href":"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/518\/revisions\/713"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=518"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=518"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=518"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}