{"id":671,"date":"2015-11-29T13:40:05","date_gmt":"2015-11-29T13:40:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.rodolfogeiser.com.br\/site\/?p=671"},"modified":"2015-11-29T13:40:05","modified_gmt":"2015-11-29T13:40:05","slug":"o-segredo-da-botanica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/2015\/11\/29\/o-segredo-da-botanica\/","title":{"rendered":"O segredo da bot\u00e2nica"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>O SEGREDO DA BOT\u00c2NICA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\" align=\"right\"><strong>Rodolfo Geiser<\/strong><\/p>\n<p><strong>I.-<\/strong><\/p>\n<p>O mundo das plantas na natureza sempre me encantou e deixou fascinado. Desde crian\u00e7a, aos 3, 4, 5 anos. E, de alguma maneira, persiste at\u00e9 hoje, d\u00e9cadas depois.<\/p>\n<p>As folhas das plantas, suas infinitas varia\u00e7\u00f5es em forma, dimens\u00e3o e disposi\u00e7\u00e3o de acordo com a esp\u00e9cie vegetal. As de formas simples, ovaladas, as em forma de lan\u00e7a, aquelas com desenhos recortados. As folhas compostas. E, na parte interna de cada folha, as nervuras tamb\u00e9m dos mais diferentes tipos. Desde nervuras paralelas at\u00e9 aquelas que v\u00e3o se ramificando como os ramos de uma \u00e1rvore. E sua igualmente diversa colora\u00e7\u00e3o. Os infinitos tons de verde. Claros e escuros. Alguns amarelados, outros avermelhados. Os glaucos. Todos ressaltando as tamb\u00e9m quase infinitas varia\u00e7\u00f5es nas formas das folhas. Cada esp\u00e9cie de planta com seu tipo pr\u00f3prio de desenho.<\/p>\n<p>Esp\u00e9cies de plantas que crescem junto ao solo, em plena exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 luz do sol ou \u00e0 sombra no sub-bosque de uma mata; as diferentes esp\u00e9cies nas partes mais sombrias tais como samambaias, musgos e cogumelos. Plantas de diversas alturas e plantas que sobem sobre os ramos das \u00e1rvores, dos cip\u00f3s, at\u00e9 aquelas brom\u00e9lias que lembram o abacaxi, grudadas l\u00e1 no alto, e as orqu\u00eddeas de que todo mundo fala e das quais meu pai tinha uma pequena cole\u00e7\u00e3o no quintal de casa.<\/p>\n<p>Era um mundo s\u00f3 meu e que fui descobrindo sozinho, andando pelos jardins, campos e matas. Fui fazendo minha pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies e tipos, quanto \u00e0 sua dimens\u00e3o e forma de crescimento: as \u00e1rvores, os arbustos, as palmeiras, as folhagens sem caules e ramos ou conforme o desenho de suas folhas: de espadas grandes como o milho ou pequenas como as das gramas dos jardins. Eram descobertas s\u00f3 minhas: um mundo \u00e0 parte que a cada dia que passava se mostrava mais amplo.<\/p>\n<p>Sempre fascinado pelas plantas, l\u00e1 pelos 17 anos, ao me decidir por uma profiss\u00e3o que me proporcionaria a sobreviv\u00eancia financeira, estava em d\u00favida entre a bot\u00e2nica e a engenharia agron\u00f4mica. Optei pela \u00faltima, pensando que estar junto com plantas e cultivando-as seria algo mais proveitoso para todos do que simplesmente estudar e anotar varia\u00e7\u00f5es do reino vegetal. Fui tamb\u00e9m motivado pelo meu primeiro emprego, uma esp\u00e9cie de ajudante que fazia de tudo numa empresa que projetava e executava jardins, e, dessa maneira, tinha um surpreendente contato com a bot\u00e2nica e as plantas.<\/p>\n<p>No transcorrer desses anos todos, na escola, fui tomando conhecimento dos grandes estudiosos de bot\u00e2nica no Brasil. A come\u00e7ar por von Martius, cientista alem\u00e3o que veio para o Brasil na comitiva da princesa Leopoldina, que se casaria com Dom Pedro I em torno de 1820. E, mais tarde, os bot\u00e2nicos brasileiros Frederico Hoehne e Jo\u00e3o Barbosa Rodrigues. Fiquei muito admirado com a hist\u00f3ria de vida dessas pessoas, que se embrenhavam nas matas por meses, anos, correndo risco de vida, longe da civiliza\u00e7\u00e3o, simplesmente para ver plantas. Que tipos de homens poderiam ser? O que os movia?<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Barbosa Rodrigues, nascido em 1842, passou cerca de 30 dos seus 57 anos de vida viajando pelo Brasil e estudando a flora. Numa \u00e9poca em que n\u00e3o havia estradas nem ve\u00edculos motorizados . Embrenhou-se pela Amaz\u00f4nia e produziu uma obra monumental intitulada <em>Cole\u00e7\u00e3o das Palmeiras Brasileiras<\/em> (<em>Sertum Palmarum Brasiliensium<\/em>), na qual descreve minuciosamente 389 esp\u00e9cies de palmeiras, organizadas em 42 g\u00eaneros, acompanhadas de 174 cromolitogravuras, cada pe\u00e7a uma verdadeira obra de arte. Desenhadas com um preciosismo de detalhes que hoje em dia n\u00e3o se v\u00ea mais. De onde viria tanta energia?<\/p>\n<p>Em torno de 1960, conheci o bot\u00e2nico Harry Blossfeld, que, durante a Segunda Guerra, em 1941, fugiu da Col\u00f4mbia para o Brasil, descendo o Rio Amazonas numa viagem que demorou 15 meses e que lhe custou a sa\u00fade. N\u00e3o poderia haver um caminho mais f\u00e1cil?<\/p>\n<p>E, logo ap\u00f3s minha formatura, em 1965, a convite de meu colega e amigo do Col\u00e9gio Dante Alighieri, Claudio Willer, subimos a p\u00e9 as encostas das Serras de Extrema, liderados pelo bot\u00e2nico e orquid\u00f3filo Anton von Ghillany: bar\u00e3o h\u00fangaro radicado no Brasil. Era um homem magro, 15 a 20 anos mais velho que n\u00f3s, dotado de uma energia incr\u00edvel, e que estava sempre uns 30 metros \u00e0 nossa frente, e andando em zigue-zague, serra acima. N\u00e3o consegu\u00edamos alcan\u00e7\u00e1-lo, a n\u00e3o ser quando ele parava.<\/p>\n<p>Entretanto, o personagem mais emblem\u00e1tico entre todos, ao menos para mim, foi o professor Albrecht Tabor, que ensinou bot\u00e2nica no Col\u00e9gio Visconde de Porto Seguro, em S\u00e3o Paulo, nas d\u00e9cadas de 1940 a 1970. Infelizmente, n\u00e3o o conheci, pois cursava outro col\u00e9gio. Foi o \u00eddolo de muitos de meus primos, amigos e de grande parte de seus alunos. Ficou famoso por atravessar o Deserto de Atacama a p\u00e9 em quatro dias. Morreu ap\u00f3s os 80 anos na Mal\u00e1sia, onde se encontrava estudando bot\u00e2nica, provavelmente assassinado, e seu corpo nunca foi encontrado.<\/p>\n<p>Nessa ocasi\u00e3o, eu cheguei a pensar que todos esses bot\u00e2nicos eram certamente cientistas, mas dotados tamb\u00e9m de uma boa dose de loucura. Loucos no bom sentido, claro! Entre os quais, eu mesmo, meio inconscientemente, me sentia inclu\u00eddo. N\u00e3o cheguei a cogitar se poderia haver alguma coisa ou o que poderia haver por tr\u00e1s de tudo isso. Que esse tipo de curiosidade e de vida pudesse encobrir um algo mais. <strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>II.-<\/strong><\/p>\n<p>Foi somente agora, em meados de 2015, aos 75 anos, que aquela perguntinha que permaneceu adormecida no inconsciente, o \u201cpoderia haver algo mais?\u201d, emergiu novamente em minha mente. E aconteceu por acaso.<\/p>\n<p>Envolvi-me no estudo de uma obra de arte da artista pl\u00e1stica Mira Schendel, relacionando-a com a Teoria Geral dos Sistemas e o Estruturalismo, quando me lembrei de uma publica\u00e7\u00e3o que comprara em 1968, onde havia um ensaio intitulado <em>Filosofia, M\u00fasica e Bot\u00e2nica &#8211; de Rousseau a L\u00e9vi-Strauss<\/em>, escrito pelo professor de filosofia da USP Bento Prado Junior. Colocar bot\u00e2nica num trip\u00e9 juntamente com m\u00fasica e filosofia certamente j\u00e1 \u00e9 algo instigante, a partir do pr\u00f3prio t\u00edtulo. Ali\u00e1s, foi essa a raz\u00e3o de ter adquirido a publica\u00e7\u00e3o na ocasi\u00e3o, o incluir \u2018bot\u00e2nica\u2019 ao lado de filosofia e m\u00fasica. Li o texto na \u00e9poca, mas n\u00e3o me trouxe maiores inspira\u00e7\u00f5es. Agora, motivado por outras raz\u00f5es, enfrentei novamente o ensaio do professor Bento. E aconteceu o que vulgarmente se comenta: agora caiu a ficha. A bot\u00e2nica tem sim um algo mais. Um algo mais que \u00e9 mais importante que ela pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Vou expor com minhas palavras o que aprendi com o texto do professor Bento, a partir de minha experi\u00eancia de vida no pensar e viver bot\u00e2nica.<\/p>\n<p>O passeio entre plantas, observando-as, distinguindo as diferen\u00e7as entre uma esp\u00e9cie e outra, o contato visual com o reino vegetal, nos abre caminho para a percep\u00e7\u00e3o de algo muito mais amplo. Nesse caminho, o papel da vis\u00e3o \u00e9 essencial, pois, sem ela, a compreens\u00e3o das plantas e o processo que isso desencadeia \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Ao visualizar cada planta, cada esp\u00e9cie vegetal, o indiv\u00edduo percebe que existe uma esp\u00e9cie de organiza\u00e7\u00e3o do reino vegetal que implica a exist\u00eancia de uma ordem, anterior \u00e0 consci\u00eancia humana. Anterior a toda a sua produ\u00e7\u00e3o cultural, que independe, portanto, do homem.<\/p>\n<p>Todo esse aprendizado e a viv\u00eancia dessa ordem preexistente podem se transformar num caminho de experi\u00eancia espiritual. Isso, independentemente do n\u00edvel de conhecimento em bot\u00e2nica que se adquire e possui. Interessa o processo. Diz o professor Bento: \u201cNo perfil da planta, assim se abre um caminho que pode conduzir \u00e0 verdade da natureza: no vegetal nenhuma fissura separa o ser do aparecer e toda a realidade da planta se entrega ao olhar que a percorre\u201d. E essa pureza na rela\u00e7\u00e3o homem e natureza, homem e planta, o faz escrever: \u201c&#8230; a bot\u00e2nica \u00e9 mais que uma forma de conhecimento; ela fornece o s\u00edmbolo da inoc\u00eancia perdida na hist\u00f3ria dos homens\u201d. \u00c9 como se o experienciador da planta na natureza voltasse para os tempos de Ad\u00e3o e Eva no Para\u00edso. Quando ainda n\u00e3o havia ocorrido o \u201cpecado original\u201d. \u00c9 o contato primevo com a natureza, n\u00e3o \u201ccontaminado\u201d pela cultura. Contato esse que \u00e9 tamb\u00e9m com a realidade pura que tange a cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Nessa linha de pensar, o professor Bento escreve: \u201cA bot\u00e2nica \u00e9 menos um conhecimento do que uma terapia das paix\u00f5es ou uma ascese da alma\u201d. Ascese que entendo como \u201co esfor\u00e7o visando \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o espiritual por meio de uma constante disciplina da vida\u201d. Ou seja, o que realmente interessa na bot\u00e2nica, repetindo, n\u00e3o \u00e9 o saber bot\u00e2nica, mas o percorrer do caminho para essa forma de conhecimento.<\/p>\n<p>Para que tudo isso ocorra, \u00e9 necess\u00e1rio o atendimento a uma exig\u00eancia: <em>o ex\u00edlio<\/em>. Nas palavras de Bento, para que \u201ca consci\u00eancia possa, assim, coincidir no instante com a vis\u00e3o e para que possa tornar-se o espelho impessoal da natureza, \u00e9 necess\u00e1rio o ex\u00edlio\u201d.\u00a0 \u00c9 necess\u00e1rio afastar-se totalmente da cultura, de tudo aquilo criado e pensado pelo homem. Deve-se aprender a isolar-se na natureza.<\/p>\n<p>Vil\u00e9m Flusser, em sua obra filos\u00f3fica, trata desse aspecto da cultura. A cultura cria v\u00e9us diante da natureza que impedem, no caso, um contato original de homem e planta. N\u00e3o vemos uma \u00e1rvore como natureza, mas como um s\u00edmbolo: o pr\u00f3prio nome com a qual a batizamos; como pulm\u00e3o que oxigena o ar; algo que nos d\u00e1 sombra e abrigo (no sentido de guarda-chuva mesmo). S\u00e3o v\u00e9us que impedem um contato direto de homem e planta como o descrito por Bento. Por isso a necessidade de ex\u00edlio.<\/p>\n<p>Para que a integra\u00e7\u00e3o com a natureza na vida \u201cselvagem\u201d seja absoluta, n\u00e3o deve restar nenhum v\u00ednculo com a civiliza\u00e7\u00e3o, suas imagens e seus v\u00e9us. Com os v\u00e9us, o contato de homem e planta \u00e9 impedido e a consci\u00eancia n\u00e3o coincide com a vis\u00e3o e n\u00e3o pode se tornar o espelho impessoal da natureza. Da\u00ed, repetindo, o ex\u00edlio.<\/p>\n<p><strong>III.- <\/strong><\/p>\n<p>Diante disso tudo, o que eu chamei no in\u00edcio de \u201cloucura\u201d dos bot\u00e2nicos transformou-se numa caracter\u00edstica quase l\u00f3gica, justificando o comportamento de todos aqueles personagens que mencionei de in\u00edcio. O que os movimentava, instintivamente, talvez era a busca da experi\u00eancia espiritual que entreviam em suas a\u00e7\u00f5es e que fornecia as for\u00e7as necess\u00e1rias para moviment\u00e1-los, enfrentando a solid\u00e3o, e de alguma maneira, cada um a seu modo, uma forma de ex\u00edlio, para vivenciar a rela\u00e7\u00e3o homem e planta em toda a sua pureza original. Um comportamento estranho dos bot\u00e2nicos, meio que comum a todos, que os estimulava a enfrentar a natureza selvagem para estudar e ver como as plantas estavam (<em>dasein<\/em>).<\/p>\n<p>Penso que, talvez, essas palavras sirvam como um sinal de alerta e aten\u00e7\u00e3o para os bot\u00e2nicos iniciantes e todos aqueles que venham a se interessar pelas plantas e pela natureza.<\/p>\n<p>Finalizando, em breves palavras, m\u00fasica \u00e9 o processo inverso da bot\u00e2nica.\u00a0 Come\u00e7a com a cultura. Um artista organiza diversos sons, criando uma m\u00fasica que, por sua vez, atinge outros seres humanos. Que a ouve e permite-se inebriar-se por seus sons. Talvez cada um, embevecido a seu modo, de acordo com sua constitui\u00e7\u00e3o, eleve-se aos rec\u00f4nditos mais desconhecidos de sua alma; a um outro tipo de realidade. Aqui, o agente promotor da experi\u00eancia n\u00e3o \u00e9 a vis\u00e3o, mas a audi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Recordo-me ent\u00e3o do senhor Vicente. Uma pessoa muito simples, sempre s\u00e9rio, voltado para o trabalho. Negro. Conheci-o na empresa de jardinagem onde trabalhei aos 17 e 18 anos. Foi ele quem me ensinou os primeiros nomes cient\u00edficos de esp\u00e9cies vegetais, sentado com a prancheta e desenhando jardins. Todas as tardes, sa\u00eda um pouco antes do final do expediente e dirigia-se para a TV Record, na Rua Consola\u00e7\u00e3o, n\u00e3o longe da Avenida Paulista. L\u00e1, ele era m\u00fasico. Uma vez, curioso, entrei pelos corredores da TV e o vi tocando um instrumento na orquestra: estava l\u00e1 um homem vibrante, expansivo e imensamente alegre.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>RG. 29.nov.2015.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O SEGREDO DA BOT\u00c2NICA Rodolfo Geiser I.- O mundo das plantas na natureza sempre me encantou e deixou fascinado. Desde crian\u00e7a, aos 3, 4, 5 anos. E, de alguma maneira, persiste at\u00e9 hoje, d\u00e9cadas depois. 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