{"id":678,"date":"2015-12-15T00:37:40","date_gmt":"2015-12-15T00:37:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.rodolfogeiser.com.br\/site\/?p=677"},"modified":"2015-12-15T00:37:40","modified_gmt":"2015-12-15T00:37:40","slug":"conservacao-da-flora-e-fauna-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfogeiser.com.br\/blog\/2015\/12\/15\/conservacao-da-flora-e-fauna-brasileira\/","title":{"rendered":"Conserva\u00e7\u00e3o da flora e fauna brasileira"},"content":{"rendered":"<p>\t\t\t\t<em>Estamos incluindo abaixo o texto da palestra do Professor Friedrich Gustav Brieger, Professor Em\u00e9rito da USP e UNICAMP, realizada em 15 de Mar\u00e7o de 1973, no pequeno audit\u00f3rio do MASP- Museu de Arte de S\u00e3o Paulo, em S\u00e3o Paulo, SP. <\/em><\/p>\n<p><em>O texto \u00e9 de impressionante atualidade principalmente por imaginar que o sistema econ\u00f4mico deve ser pensado em termos ecol\u00f3gicos: pensar-se mais no mediato e n\u00e3o sermos imediatistas. Em certo sentido \u00e9 precursor da Enc\u00edclica Laudato Si, do papa Francisco, elaborada em maio de 2015, quarenta e dois anos ap\u00f3s. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>RGPMA. <\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>Palestra: 15. III. 1973.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Conserva\u00e7\u00e3o da flora e fauna brasileira<\/strong>.<\/p>\n<p>Dr. F. G. Brieger, Prof. Em\u00e9rito USP e UNICAMP.<\/p>\n<p>Meus senhores e minhas senhoras,<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o o convite p\u00e1rea apresentar hoje \u00e0 noite, como in\u00edcio de uma s\u00e9rie de palestras sobre \u201dPreserva\u00e7\u00e3o da Flora e Fauna Brasileira\u201d, algumas considera\u00e7\u00f5es sobre os efeitos se n\u00e3o prov\u00e1veis, pelo menos poss\u00edveis do desenvolvimento r\u00e1pido que ocorre hoje no Brasil, efeitos estes mal\u00e9ficos ou n\u00e3o, sobre a flora e fauna e assim sobre o ambiente no qual o povo brasileiro ter\u00e1 que viver no futuro. Talvez se pergunte quais as\u00a0 minhas credenciais para tecer considera\u00e7\u00f5es sobre esse assunto. H\u00e1 mais de 35 anos estou estudando, no Brasil, a evolu\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies tropicais, silvestres ou cultivadas. \u00c9 um fato amplamente comprovado que a evolu\u00e7\u00e3o dos seres vivos segue uma linha em geral progressiva, deformas mais simples para outras mais complexas, com organiza\u00e7\u00e3o mais aperfei\u00e7oada, as quais paulatinamente substituem os elementos antes existentes. Assim, a evolu\u00e7\u00e3o, de um lado consiste num progresso, um melhor desenvolvimento, e de outro lado, numa destrui\u00e7\u00e3o do que havia antes e que parece assim superado. Tamb\u00e9m o desenvolvimento do homem corre este mesmo perigo: que o progresso e o desenvolvimento poder\u00e3o conter um elemento destrutivo, e n\u00e3o s\u00f3 destrutivo de um modo geral, mas realmente autodestrutivo. Que isso tamb\u00e9m ocorre no desenvolvimento de nosso pa\u00eds, no fundo realmente todos sabem, embora talvez prefiram ignorar. Por exemplo, havia, em tempos n\u00e3o muito remotos, uma ampla fonte de alimenta\u00e7\u00e3o de natureza proteica em nossos rios, cheios de saborosos peixes de \u00e1gua doce, mas, numa cidade como Piracicaba, que est\u00e1 crescendo em ambos os lados de seu rio, do mesmo nome, estes peixes quase desapareceram, devido \u00e0 polui\u00e7\u00e3o pelas cidades e aldeias que neste rio depositam os seus esgotos, cada dia mais volumosos, e pelas subst\u00e2ncias que as ind\u00fastrias de a\u00e7\u00facar, papel e de produtos qu\u00edmicos jogam com abund\u00e2ncia dentro de suas \u00e1guas. Hoje \u00e9 mais f\u00e1cil comprar peixes do mar, distante v\u00e1rias centenas de quil\u00f4metros, que do rio. Para substituir o que a natureza oferecia \u00e0s portas das casas, dentro da pr\u00f3pria cidade, seria necess\u00e1rio estruturar um complexo sistema econ\u00f4mico, uma pesca eficientemente organizada do mar, entrepostos de venda centralizados nos portos, meios de transporte em frigor\u00edficos numa rede extensa para o interior. Se nessa estrutura econ\u00f4mica moderna alguma coisa falhar, n\u00e3o haver\u00e1 recursos imediatos para evitar falta de alimento. Isso acontece, j\u00e1, em todo o mundo, e os jornais de hoje est\u00e3o cheios de noticias sobre a falta de v\u00edveres em cidades russas, que tem que adotar sistemas de racionamento; sobre a falta de viveres e a necessidade de sua importa\u00e7\u00e3o no Chile; sobre dificuldades devido \u00e0s greves na Inglaterra e sobre outras situa\u00e7\u00f5es s\u00e9rias ou mesmo desastrosas an\u00e1logas. H\u00e1 mais de que cem anos, Malthus e outros cientistas advertiram a humanidade de que o crescimento constante da popula\u00e7\u00e3o mundial, exigindo cada vez mais espa\u00e7o para as moradias e as instala\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, industriais ou administrativas, for\u00e7osamente reduziriam n\u00e3o somente a \u00e1rea a ser usada para a produ\u00e7\u00e3o de alimentos naturais, mas que a destrui\u00e7\u00e3o do ambiente natural conduziria fatalmente a uma polui\u00e7\u00e3o insan\u00e1vel da atmosfera, dos solos, dos cursos d\u2019\u00e1gua e, mesmo, do mar. Mas ao mesmo tempo que se pinta em cores negras o futuro da humanidade, sugere-se o rem\u00e9dio: um planejamento e longo e curto prazo, uma atitude bem dosada de progresso e de conserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 a nossa situa\u00e7\u00e3o, de brasileiros, nesta situa\u00e7\u00e3o mundial? Certamente n\u00e3o existem ainda os problemas do suleste asi\u00e1tico, com a sua superpopula\u00e7\u00e3o combinada com a falta de organiza\u00e7\u00e3o e previs\u00e3o, pois o Brasil \u00e9 um dos poucos pa\u00edses do mundo com extens\u00e3o de \u00e1rea enorme e uma popula\u00e7\u00e3o proporcionalmente diminuta, de modo que pode parecer de boa pol\u00edtica nacional aumentar a popula\u00e7\u00e3o para obter m\u00e3o de obra abundante e para ocupar as \u00e1reas ainda n\u00e3o habitadas, criando uma ind\u00fastria e ao mesmo tempo um mercado de absor\u00e7\u00e3o destes produtos, pois somente assim, pelos conceitos da atualidade, o Brasil se tornar\u00e1 um pa\u00eds desenvolvido. Pode-se dizer que o povo brasileiro em toda sua hist\u00f3ria teve uma tremenda sorte. Como os norte-anericanos, tamb\u00e9m os colonizadores brasileiros enfrentaram um territ\u00f3rio vasto, mas fracamente povoado, com flora e fauna ricas e com recursos minerais amplos. Enquanto nos Estados Unidos a penetra\u00e7\u00e3o para o interior, do Atl\u00e2ntico para o Pac\u00edfico, foi essencialmente feita por agricultores, que imediatamente aproveitaram as terras mais f\u00e9rteis, os nossos bandeirantes puxaram as fronteiras do pa\u00eds at\u00e9 os contrafortes dos Andes, em excurs\u00f5es apenas de penetra\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o de ocupa\u00e7\u00e3o. Houve porem outra e profunda diferen\u00e7a: os colonizadores norte-americanos, vindos da Europa, encontraram condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e de flora e fauna muito semelhantes \u00e0s das terras de sua origem,\u00a0 e trazendo consigo as plantas ou os animais dom\u00e9sticos, logo podiam implantar uma agricultura\u00a0 eficientemente, usando os mesmos m\u00e9todos que os seus antepassados na Europa tinham elaborado e usado durante centenas ou mesmo milhares de anos. Os colonizadores do Brasil penetraram em \u00e1reas tropicais, sem nenhuma experi\u00eancia de como proceder para arrancar do solo a base alimentar. Ent\u00e3o eles imitaram as t\u00e9cnicas dos ind\u00edgenas: destruir \u00e1reas de mata, com a sua terra naturalmente f\u00e9rtil, plantar e colher, at\u00e9 que a terra nestes lugares estivesse exausta, e ent\u00e3o abandonar estas \u00e1reas a sua pr\u00f3pria sorte, e derrubar nova \u00e1rea de mata ou cerrado. Se os pastos eram fracos, permitindo a alimenta\u00e7\u00e3o de poucos animais apenas por unidade de \u00e1rea, isto n\u00e3o preocupava, pois a \u00e1rea dispon\u00edvel parecia intermin\u00e1vel. Quando se precisava de madeira para constru\u00e7\u00f5es e outros fins, a natureza em milhares de anos tinha produzido uma reserva aparentemente infinita de \u00e1rvores, de muitas qualidades, sendo apenas necess\u00e1rio derrub\u00e1-las e us\u00e1-las. N\u00e3o se precisava nem pensar em substituir estas \u00e1rvores, pois havia tantas. Num processo economicamente prejudicial, queimavam-se extensas \u00e1reas, somente para usar a lenha e as \u00e1reas assim devastadas foram deixadas a sua pr\u00f3pria sorte. N\u00e3o se pensou, em um s\u00f3 momento, que a t\u00e9cnica, que dava bons resultados, numa popula\u00e7\u00e3o de algumas centenas de milhares de ind\u00edgenas, n\u00e3o poderia dar certo de forma alguma, quando surgissem milh\u00f5es de pessoas, usando m\u00e1quinas que fazem o servi\u00e7o de centenas de trabalhadores. Este tipo de procedimento certamente tem trazido lucro imediato para alguns, mas representa um desgaste de capital, e assim \u00e9 inadmiss\u00edvel numa economia planejada a longo prazo.<\/p>\n<p>Este esp\u00edrito persiste de fato no presente, e posso citar dois exemplos. Visitei a cerca de 25 anos ou mais, uma grande f\u00e1brica de papel, no Paran\u00e1. Os implantadores desta ind\u00fastria colocaram a f\u00e1brica no meio de uma \u00e1rea de pinheiros brasileiros, reuniram um excelente grupo de t\u00e9cnicos e qu\u00edmicos para que a fabrica\u00e7\u00e3o fosse eficiente e o produto de alta qualidade, e organizaram o mercado e a rede de distribui\u00e7\u00e3o do papel produzido, mas n\u00e3o se preocupavam com a fonte de mat\u00e9ria prima, pois tinham tantos pinheiros. Eles imitaram, at\u00e9 certo limite, as t\u00e9cnicas elaboradas em pa\u00edses desenvolvidos. Usaram uma tecnologia aperfei\u00e7oada, seja pela importa\u00e7\u00e3o de especialistas estrangeiros, ou pelo envio de brasileiros para treinamento no estrangeiro e assim, com esfor\u00e7o m\u00ednimo brasileiro, organizaram a produ\u00e7\u00e3o. Enquanto na Europa o fornecimento da mat\u00e9ria prima est\u00e1 bem organizado, esse cuidado n\u00e3o parecia necess\u00e1rio no Brasil, porque havia muitas reservas naturais. Mas chegou o dia em que a f\u00e1brica ficou no meio de uma \u00e1rea devastada e a madeira teve que ser transportada em estradas, para isso constru\u00eddas, at\u00e9 de trinta quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. N\u00e3o se tinha pensado em empregar esfor\u00e7os e dinheiro para substituir, paulatinamente, o que foi gasto. Importa-se ent\u00e3o um t\u00e9cnico, que, conforme me lembro, n\u00e3o tinha experi\u00eancia em silvicultura tropical, para iniciar o reflorestamento em grande escala, adquirindo sementes em vag\u00f5es de qualquer proced\u00eancia e plantando tudo misturado, alguns milh\u00f5es de \u00e1rvores por ano. Talvez este modo de criar uma nova floresta de arauc\u00e1ria tenha dado certo, mas n\u00e3o tenho d\u00favida de que teria sido mais eficiente do ponto de vista econ\u00f4mico-financeiro, estabelecer um planejamento inicial e previdente, deixando bosques naturais de pinheiros para que distribu\u00edssem as suas sementes e para que assim a vegeta\u00e7\u00e3o natural, adaptada a regi\u00e3o, partindo destes bosques deixados, se regenerasse. Isto teria sido poss\u00edvel, pois ao longo de caminhos ou estradas num pinheiral natural, nascem pinheiros novos, que n\u00e3o conseguem por\u00e9m crescer dentro do pinheiral fechado e assim sombrio.<\/p>\n<p>Parece-me que o povo brasileiro acostumou-se a viver como os filhos de fam\u00edlia abastada, gastando o capital que parece inesgot\u00e1vel e comprando os servi\u00e7os de terceiros, muitas vezes estrangeiros, em v\u00eas de fazer um esfor\u00e7o pr\u00f3prio. Eram estas as caracter\u00edsticas da atitude brasileira, na fase antiga da coloniza\u00e7\u00e3o, que persistem at\u00e9 hoje: de um lado o \u201cplantando d\u00e1\u201d de qualquer jeito e quando n\u00e3o der, recorrer-se a conhecimentos de alheios, aplicando-os sem preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Grandes \u00e1reas nas nossas serras foram devastadas pela derrubada e queima de \u00e1rvores com o fim da obten\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o, necess\u00e1rio durante aquelas \u00e9pocas para muitos fins, e o solo assim perdeu a sua prote\u00e7\u00e3o natural contra a eros\u00e3o. Mais recentemente estas serras foram cortadas pelas grandes rodovias modernas e o inevit\u00e1vel e mesmo previs\u00edvel ocorreu: grandes massas do solo, n\u00e3o mais protegido, se movimentam sob o efeito de chuvas e as estradas ficam enterradas e ent\u00e3o impedidas, como aconteceu h\u00e1 poucos dias tanto na Rio-Bahia como na S\u00e3o Paulo-Curitiba. Ser\u00e1 que, do ponto de vista da economia do pa\u00eds, pode-se considerar compensador o lucro dos lenhadores, que devastaram a mata natural, em compara\u00e7\u00e3o com a atual que despreza constante da manuten\u00e7\u00e3o do leito das estradas? Num planejamento econ\u00f4mico a prazo, teria sido mais certo manter a mata onde os declives o indicassem, para evitar uma eros\u00e3o progressiva e \u00e0s vezes excessiva subsequente. Mas isto exige uma outra forma de pensar: n\u00e3o visar lucro imediato que resulta em preju\u00edzo maior para o futuro.<\/p>\n<p>Se tais perguntas representam um problema s\u00e9rio nas \u00e1reas j\u00e1 devastadas, obrigando os planejadores a gastar import\u00e2ncias respeit\u00e1veis para corrigir os erros do passado, tal planejamento se torna mais importante e mesmo urgente na invas\u00e3o desenvolvimentista da enorme reserva representada pela Bacia Amaz\u00f4nica. N\u00e3o pode haver a m\u00ednima d\u00favida de que esta reserva n\u00e3o dever\u00e1 nem poder\u00e1 ficar improdutiva, mas torna-se indispens\u00e1vel um rigoroso planejamento t\u00e9cnico e econ\u00f4mico em bases cientificas, antes que seja tarde demais, evitando a repeti\u00e7\u00e3o do que aconteceu aqui no sul do pa\u00eds. Deve-se levantar de novo a quest\u00e3o sobre o que ser\u00e1 mais adequado para o pa\u00eds: uma explora\u00e7\u00e3o ultra-r\u00e1pida, visando lucros imediatos e arriscando um futuro incerto, ou proceder mais lentamente e com muita cautela? L\u00ed nos \u00faltimos dias, no grande jornal \u201cO Estado de S\u00e3o Paulo\u201d uma ampla reportagem sobre o projeto Jar\u00ed, ao longo deste rio que separa o Par\u00e1 do Amap\u00e1. Numa vasta \u00e1rea, que ocupa um trecho muito largo entre o Amazonas e a fronteira das Guianas, um cons\u00f3rcio, tendo j\u00e1 reunido uma centena de t\u00e9cnicos, planeja o plantio, em curto prazo, de 100 milh\u00f5es de p\u00e9s de \u201cMelina\u201d e 50 milh\u00f5es de pinheiros, para nelas basear uma grande ind\u00fastria que produzir\u00e1 mil toneladas de celulose por dia, para fabrica\u00e7\u00e3o de papel, 300.000m3 de compensados por ano, 150.000 m3 de laminados e 225.000 m3 de madeira para m\u00f3veis. Mas o jornal traz outras informa\u00e7\u00f5es. Assim, na \u00e2nsia de chegar rapidamente a uma ampla produ\u00e7\u00e3o, foram usadas m\u00e1quinas pesadas para remover a mata, e depois as mudas foram plantadas, mas cresceram muito mal. Chegaram ent\u00e3o os t\u00e9cnicos respons\u00e1veis, \u00e0 conclus\u00e3o\u00a0 de que as m\u00e1quinas removem uns 15 cm. da camada superior do solo, e assim se torna evidente que eles n\u00e3o sabiam antes que isto ter\u00e1 resultados fatais em solos tropicais, sempre de pouca profundidade, pois logo se chega ao subsolo est\u00e9ril. Fazendo empiricamente esta grande descoberta, de uma coisa que at\u00e9 o nosso caboclo j\u00e1 sabe, que n\u00e3o se deve remover as camadas superiores do solo, resolveram aplicar outra t\u00e9cnica: a derrubada da mata pelo machado e a sua queima no lugar onde caem os troncos. Eles confiam, mas provavelmente n\u00e3o tem certeza disso, nem poderiam ter, que o fogo n\u00e3o destruir\u00e1 os micro organismos, vermes e outros animais do solo, necess\u00e1rios para a decomposi\u00e7\u00e3o e a incorpora\u00e7\u00e3o do material org\u00e2nico no solo, e esperam que as chuvas n\u00e3o removam\u00a0 as cinzas minerais antes que\u00a0 possam ser incorporadas e ficadas ao solo. Deve-se considerar outro ponto. A mata tropical \u00e9 extremamente polimorfa, com mais de 200 esp\u00e9cies diferentes por hectare, mas no Jar\u00ed se planeja plantar apenas duas esp\u00e9cies. Ambas s\u00e3o de origem alien\u00edgena, e assim n\u00e3o se pode prever quais as pragas e mol\u00e9stias capazes de ocorrer no desenvolvimento natural lento de tais ess\u00eancias, nem se ambas est\u00e3o adaptadas realmente \u00e0s condi\u00e7\u00f5es extremas do clima que periodicamente ocorrem. Dever\u00e1 estar plantado um total de 40 milh\u00f5es de \u00e1rvores ainda nestes meses, e outros 409 milh\u00f5es at\u00e9 1978, para no fim atingir um total da ordem de 150 milh\u00f5es. Foram escolhidos para o plantio nesta escala, duas esp\u00e9cies de ess\u00eancias, a Melina origin\u00e1ria da \u00c1sia, ao que parece muito plantada na \u00c1frica, e o Pinus de Honduras, ambas estrangeiras. Ser\u00e1 que j\u00e1 existem experi\u00eancias suficientes, mostrando que ambas se adaptar\u00e3o bem ao nosso clima, que n\u00e3o ter\u00e3o pragas e mol\u00e9stias, que, em extensas monoculturas, facilmente podem chegar a dimens\u00f5es de epidemias com dif\u00edcil combate? N\u00e3o tenho d\u00favida nenhuma que o nosso Governo deve ser elogiado pela energia com que constr\u00f3i estradas e abre a vasta Amaz\u00f4nia, implantando ao longo destas estradas, n\u00facleos pequenos, habitados. Mas parece arriscado, sem estudos e experimentos pr\u00e9vios e cuidadosos, destruir em vastas \u00e1reas o que existiu e se criou em mil\u00eanios, tirando um certo lucro imediato, mas incerto na sua persist\u00eancia. Suponho que o cons\u00f3rcio norte-americano que ganhou a concess\u00e3o, fez os seus c\u00e1lculos para obter lucro a prazo curto ou m\u00e9dio ou, na pior hip\u00f3tese, perder pouco dinheiro nesta especula\u00e7\u00e3o, como j\u00e1 tem acontecido com a Ford ou a Firestone, quando tentaram criar vastas planta\u00e7\u00f5es da borracha em Fordl\u00e2ndia; mas \u00e9 preciso lembrar que tamb\u00e9m, nestes empreendimentos n\u00e3o houve um lucro ou progresso a curto, nem a longo prazo, para o Brasil.<\/p>\n<p>N\u00e3o pode haver d\u00favida de que o Brasil, pais de t\u00e3o grande sorte no passado, que p\u00f4de justificar a express\u00e3o que \u201cDeus \u00e9 Brasileiro\u201d muito ganhou com a introdu\u00e7\u00e3o do caf\u00e9, da cana de a\u00e7\u00facar ou do Eucaliptus. As duas primeiras culturas mencionadas penetraram lentamente no pa\u00eds at\u00e9 atingir a sua grande extens\u00e3o atual. Durante longo per\u00edodo, lavradores e depois t\u00e9cnicos e cientistas fizeram as suas experi\u00eancias, melhorando as variedades, os m\u00e9todos de cultivo e de tratamento de pragas e mol\u00e9stias. Na introdu\u00e7\u00e3o de <span style=\"text-decoration: underline;\">Eucalyptus<\/span>, a lideran\u00e7a coube a um silvicultor de ampla experi\u00eancia, M\u00e1rio Navarro de Andrade, e a sua expans\u00e3o foi proporcionalmente lenta, quando comparada com a extens\u00e3o que se d\u00e1 hoje ao plantio de pinheiros, do g\u00eanero <span style=\"text-decoration: underline;\">Pinus<\/span>, g\u00eanero inexistente em todo o territ\u00f3rio brasileiro. O que recomenda esta ess\u00eancia \u00e9 que ela d\u00e1 bom rendimento em outras zonas, especialmente naquelas onde \u00e9 nativa.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria interessante que se come\u00e7assem estudos s\u00e9rios e amplos sobre o valor de nossas pr\u00f3prias ess\u00eancias? A esse respeito devo lembrar o que ocorreu na Reuni\u00e3o Anuial da Sociedade Brasileira de Bot\u00e2nica, neste ano, em Pelotas. Um Agr\u00f4nomo experimentado, Chefe de uma Esta\u00e7\u00e3o Experimental, durante longos anos, em Minas e atualmente Diretor da Faculdade de Agronomia de Bras\u00edlia, Esequias Heringer, relatou experi\u00eancias com \u00e1rvores do Cerrado, produtoras promissoras de corti\u00e7a para fins industriais. Informou sobre a forma\u00e7\u00e3o de corti\u00e7a em \u00e1rvores jovens por ele plantadas, no seu ambiente natural, nos cerrados do Distrito Federal, com resultados satisfat\u00f3rios e boa qualidade da corti\u00e7a obtida, e sugerindo eventualmente um plantio em escala, ao inv\u00e9s de destrui\u00e7\u00e3o atual dos exemplares ainda existentes. Ent\u00e3o se levantou outro colega, perguntando se n\u00e3o seria mais indicado importar o carvalho de corti\u00e7a que t\u00e3o bons resultados d\u00e1 em seu pa\u00eds de origem. Sempre se repete assim a opini\u00e3o de que ser\u00e1 melhor importar produtos estrangeiros, em vez de trabalhar e identificar esp\u00e9cies nacionais, j\u00e1 adequadas a nosso clima, pois em ambos os casos torna-se necess\u00e1rio um trabalho de melhoramento gen\u00e9tico das variedades e um aperfei\u00e7oamento de t\u00e9cnicas de cultivo. A resposta foi dada imediatamente pelo pr\u00f3prio Heringer, que lembrou que este carvalho do mediterr\u00e2neo \u00e9 adaptado a condi\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas muito especiais, e n\u00e3o se comporta bem em outros climas. Insisto que dever\u00edamos usar sempre que poss\u00edvel, o material que j\u00e1 existe h\u00e1 muitas centenas de anos no nosso clima, e n\u00e3o somente copiar o que se faz no estrangeiro.<\/p>\n<p>Esta contribui\u00e7\u00e3o apresentada no Congresso, mostrou o pouco que sabemos sobre as qualidades dos elementos da nossa flora. \u00c9 um fato muito estranho que nem mesmo tenhamos conhecimentos razo\u00e1veis sobre a flora da vasta \u00e1rea do territ\u00f3rio brasileiro. Outros pa\u00edses tem feito esfor\u00e7os\u00a0 para conhecer, at\u00e9 com min\u00facias, de que se comp\u00f5e a sua vegeta\u00e7\u00e3o natural, e a fauna que nela vive. Para esta tarefa, no Brasil, os brasileiros relativamente pouco tem contribu\u00eddo principalmente por falta de profissionais adequadamente preparados e de est\u00edmulo para o seu trabalho, em decorr\u00eancia da falta de previs\u00e3o de autoridades superiores. Se algu\u00e9m pergunta, quantos experimentos bot\u00e2nicos existem no Brasil, a resposta ser\u00e1 provavelmente um n\u00famero rid\u00edculo, talvez de uma centena num pa\u00eds de milh\u00f5es. O \u201cbot\u00e2nico\u201d \u00e9 considerado como um profissional de pouca utilidade, esp\u00e9cie curioso que se expressa em termos incompreens\u00edveis para o leigo, pois usa nomes em latim para denominar \u00e1rvores ou qualquer outra planta, e que n\u00e3o contribui para o progresso do pa\u00eds, com alguma coisa que possa ser avaliado em termos financeiros. Os conceitos em outros pa\u00edses s\u00e3o bem diferentes, e constantemente o Brasil \u00e9 percorrido por especialistas, bot\u00e2nicos e ec\u00f3logos, que coletam material, fazendo observa\u00e7\u00f5es e levam depois tudo para suas casas, em Nova York ou Londres, para an\u00e1lise dos dados e publica\u00e7\u00e3o dos resultados. Devemos ser gratos a esses especialistas, pois assim se adquirem pelo menos alguns conhecimentos, mas dev\u00edamos ter feito muito mais para que os nossos docentes pudessem estimular os seus pr\u00f3prios alunos a fazerem tais estudos. Tive muitas vezes a ocasi\u00e3o de constatar, como professor universit\u00e1rio, que jovens gostariam de fazer excurs\u00f5es e coletar plantas ou animais, de fazer registros sobre as condi\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas de nossa terra, mas quase todos estes alunos depois desistem, e dedicam sua aten\u00e7\u00e3o a outros trabalhos que permitem obter empregos p\u00fablicos ou particulares, pois para bot\u00e2nicos ou ec\u00f3logos existem poucas vagas, em geral permanentemente ocupadas e n\u00e3o devidamente aumentadas, em universidades e alguns institutos de pesquisa.<\/p>\n<p>O que tem de ser feito primeiramente, no nosso pa\u00eds, \u00e9 um levantamento do que existe e como existe, isto \u00e9, um trabalho de classifica\u00e7\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, em continua\u00e7\u00e3o do que cientistas estrangeiros fizeram no in\u00edcio do s\u00e9culo com a publica\u00e7\u00e3o da grande obra de VON MARTHIUS. \u00a0Com base em tais conhecimentos poder-se-\u00e3o tirar conclus\u00f5es sobre o que deve ser conservado, o que pode ser eliminado, e mesmo quais as exig\u00eancias para que uma \u00e1rea devastada e polu\u00edda possa-se tornar de novo uma \u00e1rea saud\u00e1vel e mesmo \u00fatil. Existe em princ\u00edpio uma grande diferen\u00e7a entre as fun\u00e7\u00f5es de um agr\u00f4nomo e de um bi\u00f3logo e ecologista, embora atualmente muitos engenheiros agr\u00f4nomos estejam fazendo trabalho de valor sobre a flora e fauna e as suas condi\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas. Mas, em princ\u00edpio, pode-se dizer que o treinamento do agr\u00f4nomo ou do silvicultor visa a prepara\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicos que saibam escolher as \u00e1reas para o cultivo e como melhorar a produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria ou florestal, quando o bi\u00f3logo-ec\u00f3logo deve estudar o que existe na natureza e porque existe, sem visar, em princ\u00edpio em seu aproveitamento ou aumento da produtividade.<\/p>\n<p>Para melhor caracterizar a situa\u00e7\u00e3o atual posso lembrar o seguinte caso: h\u00e1 alguns anos, a Sociedade Real da Inglaterra resolveu mandar ao Brasil, e ai manter durante alguns anos, uma equipe de primeira linha, para estabelecer um laborat\u00f3rio de campo n\u00e3o muito distante da Ilha do Bananal, que realizasse estudos in loco. Apoiado plenamente por organiza\u00e7\u00f5es nacionais, como o CNPq, este plano ingl\u00eas foi posto em execu\u00e7\u00e3o, tendo sido tornada p\u00fablica a oferta dos ingleses de custear a estada de bi\u00f3logos brasileiros que desejasse colaborar no laborat\u00f3rio de campo, bem como o convite a estudantes, com a promessa de dar aos melhores entre eles bolsas, para um aperfei\u00e7oamento posterior junto aos especialistas na Inglaterra. Vieram alguns poucos cientistas brasileiros, pois a maioria n\u00e3o se podia afastar das suas obriga\u00e7\u00f5es normais nas suas sedes, como n\u00e3o havia substitutos em n\u00famero adequado. N\u00e3o se apresentou nenhum estudante. Os ingleses queriam ainda deixar aqui no Brasil este laborat\u00f3rio implantado e o campo experimental com o seu equipamento, quando voltaram para a sua terra. Mas conforme me consta n\u00e3o teve continuidade no seu trabalho por parte brasileira. Quando fazia ainda parte do Corpo Docente da Universidade Estadual de Campinas, participei dos estudos preparat\u00f3rios para a implanta\u00e7\u00e3o de um Curso de Ecologia, de n\u00edvel p\u00f3s-graduado.\u00a0 N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil elaborar um programa para tal Curso; \u00e9 um pouco mais dif\u00edcil reunir um corpo docente especializado, embora existam especialistas brasileiros capazes e em n\u00famero adequado, mas certamente a maior dificuldade \u00e9 saber-se se tal curso ter\u00e1 alunos, em vista da pouca possibilidade deles encontrarem emprego adequado quando terminarem esta especializa\u00e7\u00e3o. Parece-me estranho que o Brasil inicia a ocupa\u00e7\u00e3o de vastas \u00e1reas da Amaz\u00f4nia, antes de fazer um levantamento cientifico completo do que nela existe e porque existe. N\u00e3o h\u00e1 tal levantamento, porque o Brasil nunca se preparou em dispor de t\u00e9cnicos preparados em n\u00famero suficiente para realizar essa tarefa urgente, dando prosseguimento aos estudos de Duke e de Lecointe sobre a flora amaz\u00f4nica. \u00c9 de se esperar que do atual esfor\u00e7o magn\u00edfico do Governo em prol da Educa\u00e7\u00e3o surjam v\u00e1rios cientistas jovens dispostos a levar adiante esses trabalhos com entusiasmo e profici\u00eancia. Mas talvez, ent\u00e3o a floresta amaz\u00f4nica j\u00e1 n\u00e3o exista mais.<\/p>\n<p>Os jornais trazem noticias de que se pretende tra\u00e7ar estradas e implantar atividades industriais em \u00e1reas de Reservas Florestais ou Parques Nacionais, nos poucos que ainda restam. Os engenheiros, planejadores e executores, certamente s\u00e3o homens de alta compet\u00eancia nas suas especialidades. Eles construir\u00e3o estradas pelas melhores t\u00e9cnicas, mas considerando a terra, o solo, o subsolo, como mat\u00e9ria morta que pode ser moldado \u00e0 vontade. Se depois a eros\u00e3o pela \u00e1gua e pelo vento, nas encostas, assume propor\u00e7\u00f5es assustadoras e causa preju\u00edzos financeiros, vultuosos, isto n\u00e3o \u00e9 culpa da engenharia, mas sim pelos efeitos lament\u00e1veis da natureza agressiva, cuja previs\u00e3o n\u00e3o \u00e9, evidentemente, da compet\u00eancia da engenharia. Se as estradas com as moradias, postos de gasolina, restaurantes e outras atra\u00e7\u00f5es tur\u00edsticas, se transformar\u00e3o em base da penetra\u00e7\u00e3o de lenhadores ou posseiros, isto tamb\u00e9m n\u00e3o ser\u00e1 culpa dos engenheiros, nem estes poder\u00e3o ser responsabilizados quando estas estradas e habita\u00e7\u00f5es se tornam um foco de destrui\u00e7\u00e3o do equil\u00edbrio biol\u00f3gico natural e geram a polui\u00e7\u00e3o que, como um c\u00e2ncer invade toda a \u00e1rea a partir do foco criado por uma nova estrada num Parque Nacional ou Reserva Florestal. A medicina se preocupa em evitar que se criem focos cancerosos no corpo humano, mas o planejamento desenvolvimentista descuidado \u00e9 capaz de implantar focos de car\u00e1ter maligno na natureza, e mesmo em \u00e1reas que por outras raz\u00f5es ponder\u00e1veis foram consideradas como Reservas Nacionais.<\/p>\n<p>Outro aspecto curioso da quest\u00e3o \u00e9 o seguinte. Nos pa\u00edses desenvolvidos representa parte da educa\u00e7\u00e3o da juventude ensinar tudo poss\u00edvel sobre o seu pa\u00eds, a sua hist\u00f3ria, a sua geografia, a sua flora e fauna, e o seu desenvolvimento. No Brasil est\u00e1 se fazendo a mesma coisa, com uma exce\u00e7\u00e3o: n\u00e3o interessa nem a vegeta\u00e7\u00e3o nem a fauna do pa\u00eds, nem a situa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica encontrada no in\u00edcio da penetra\u00e7\u00e3o. Ouvi at\u00e9 esta opini\u00e3o: porque ensinar alguma coisa aos jovens sobre o meio ambiente inicial, coisa totalmente in\u00fatil que deve desaparecer? N\u00e3o seria importante manter Reservas Naturais de flora e fauna, da mesma forma como se conservam antigas igrejas e casar\u00f5es? Porque a hist\u00f3ria do Brasil, das \u00faltimas centenas de anos, merece ser conhecida, mas n\u00e3o a base de sua exist\u00eancia, que era a sua flora e fauna iniciais?<\/p>\n<p>Talvez esta atitude seja uma consequ\u00eancia da luta que os antigos colonizadores, desbravadores das terras, tinham que vencer contra a natureza exuberante do tr\u00f3pico, sempre invadindo as poucas terras ent\u00e3o cultivadas. Esta guerra est\u00e1 amplamente vencida pelos lavradores, mas estes mant\u00e9m uma atitude, se n\u00e3o de inimizade contra a natureza, pelo menos de indiferen\u00e7a total. O brasileiro se esqueceu que em todas as guerras, o vencido acaba pro se vingar: as terras devastadas se tornam \u00e1ridas e est\u00e3o perdidas para a agricultura e a destrui\u00e7\u00e3o do equil\u00edbrio biol\u00f3gico pode conduzir a polui\u00e7\u00e3o, prejudicial at\u00e9 para a sa\u00fade do homem. Al\u00e9m de destruidor, o brasileiro continua a se comportar como explorador. Observei em parques Naturais e Reservas, que plantas raras, orqu\u00eddeas, brom\u00e9lias, beg\u00f4nias ou passarinhos e borboletas s\u00e3o ca\u00e7ados e levados para casa, ou para morrer no cofre de um autom\u00f3vel ou depois de um curto per\u00edodo de tentativas de manuten\u00e7\u00e3o e de cultivo.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma certa avers\u00e3o do brasileiro contra a natureza que se expressa de v\u00e1rias formas. O brasileiro n\u00e3o sente a necessidade de descansar num ambiente sadio e natural, como acontece com os outros povos e especialmente, com as popula\u00e7\u00f5es de grandes cidades, cansadas das massas de cimento e asfalto. Nas pequenas aldeias nossas sempre havia uma pra\u00e7a central, bem ajardinada, suficientemente extensa na \u00e9poca, pois as casas tinham quintais arborizados e as fazendas, com seus bosques, estavam perto. As cidades cresceram, mas n\u00e3o se aumentaram as pra\u00e7as, e os quintais foram cimentados. N\u00e3o existem, nas nossas cidades, parques naturais ou planejados e mantidos por arquitetos paisagistas, para o recreio das fam\u00edlias, parques como existem em Paris, Londres, Berlim, N.York, M\u00e9xico, etc. Notam-se ind\u00edcios de que se pretende implantar este tipo de recreio e descanso familiar tamb\u00e9m no Brasil, mas parece-me que a destrui\u00e7\u00e3o das poucas \u00e1reas verdes existentes, mesmo em S\u00e3o Paulo, \u00e9 mais eficiente e r\u00e1pida que a cria\u00e7\u00e3o desses parques. Quando a derrubada de casas se torna necess\u00e1rio para abrir avenidas e vias de transporte, nem a despesa de desapropria\u00e7\u00f5es pesa, mas para manter ou aumentar \u00e1reas verdes faltam recursos, e se destroem sem dor as poucas porventura existentes.<\/p>\n<p>O que tentei dizer, j\u00e1 foi dito por muitos outros e de uma forma certamente mais eloquente e convincente. Mas para que estas advert\u00eancias calem profundamente no esp\u00edrito dos dirigentes, torna-se necess\u00e1rio repeti-las sempre.\u00a0 Assim, em conclus\u00e3o, quero resumir o seguinte:<\/p>\n<p>O povo brasileiro teve a sorte de penetrar numa das \u00e1reas mais ricas em recursos naturais dos quais a sua flora e fauna formam uma grande parte. Esta n\u00e3o somente representa recursos naturais importantes, mas \u00e9 ela principalmente o fator determinante do clima e do ambiente em geral em que vivemos. \u00c9 necess\u00e1rio que este grande capital de base ser\u00e1 preservado na medida do poss\u00edvel, e seja aproveitado com o m\u00e1ximo de efici\u00eancia dentro de um esp\u00edrito conservador: Tudo se deve fazer para evitar que o pa\u00eds se transforme em regi\u00e3o \u00e1rida e polu\u00edda pela pressa de um desenvolvimento ultra r\u00e1pido. N\u00e3o existe a alternativa: desenvolvimento ou conserva\u00e7\u00e3o, pois ambos s\u00e3o importantes para o futuro do pa\u00eds.<\/p>\n<p>* * * * * * * * *\t\t<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estamos incluindo abaixo o texto da palestra do Professor Friedrich Gustav Brieger, Professor Em\u00e9rito da USP e UNICAMP, realizada em 15 de Mar\u00e7o de 1973, no pequeno audit\u00f3rio do MASP- Museu de Arte de S\u00e3o Paulo, em S\u00e3o Paulo, SP. 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